Margem de 2 pontos: diferença de 3 pontos ainda é empate técnico
Com 2.401 entrevistas e 95% de confiança, a diferença entre dois candidatos precisa passar de cerca de 3,6 pontos para indicar quem está à frente.

Desde 1º de janeiro de 2026, toda pesquisa eleitoral divulgada ao público precisa estar registrada na Justiça Eleitoral até cinco dias antes da divulgação. O registro é feito no PesqEle, o Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A regra está no artigo 33 da Lei das Eleições, a Lei nº 9.504, de 1997.
O primeiro turno foi em 4 de outubro. O segundo turno, se houver, está marcado para 25 de outubro. Este texto faz uma conta que muitas notícias deixam de fora: quando a diferença entre dois candidatos é real.
No PesqEle, a empresa informa quem contratou a pesquisa, quanto ela custou e de onde veio o dinheiro. A Resolução 23.747, de 2026, que atualizou as regras, também exige nota fiscal e a declaração do estatístico responsável. Divulgar pesquisa sem registro gera multa, de R$ 53 mil a R$ 106 mil. Divulgar pesquisa fraudulenta é crime, com pena de detenção de seis meses a um ano, além de multa.
Margem de erro: a conta que muda a leitura
Uma pesquisa entrevista uma amostra, um grupo menor montado para reproduzir o perfil do eleitorado, e não todos os eleitores. Por isso, todo resultado tem uma margem de erro, a faixa em que o número real pode estar. Num exemplo hipotético, um candidato tem 40%, com margem de 2 pontos percentuais (a diferença direta entre dois percentuais). O número real estaria entre 38% e 42%.
O nível de confiança, em geral de 95%, indica a segurança do método. Se a pesquisa fosse repetida 100 vezes, em cerca de 95 delas a faixa incluiria o valor real. Com 2.401 entrevistas, a margem fica em torno de 2 pontos, no pior caso, quando as respostas se dividem ao meio. Quanto maior a amostra, menor a margem, mas o ganho diminui: de 2.000 para 2.401 entrevistas, ela cai só de 2,2 para 2,0 pontos, como mostra a tabela abaixo.
Para separar dois candidatos, a diferença exigida é quase o dobro da margem de cada um Margem de erro em pontos percentuais, com 95% de confiança, por número de entrevistas; diferença calculada para candidatos com 41% e 38%
| Entrevistas | Margem de cada candidato | Diferença exigida entre os dois |
|---|---|---|
| 500 | 4,4 | 7,8 |
| 1.000 | 3,1 | 5,5 |
| 2.000 | 2,2 | 3,9 |
| 2.401 | 2,0 | 3,6 |
Fonte: cálculo da redação com a fórmula do erro amostral para proporções, com 95% de confiança; tamanho de 2.401 entrevistas como referência de pesquisas presidenciais. Dados em tabela-1.csv. Elaboração: redação.
Na prática, com 2.401 entrevistas, cada candidato tem margem de 2 pontos. Mas a diferença entre os dois precisa passar de 3,6 pontos para indicar, com 95% de confiança, quem está à frente. A margem da diferença fica quase o dobro da margem de cada um.
Empate técnico: quando as faixas se cruzam
O empate técnico acontece quando as faixas de dois candidatos se cruzam. No exemplo de 41% contra 38%, com margem de 2 pontos, a faixa do primeiro vai de 39% a 43%. A faixa do segundo vai de 36% a 40%. As faixas se sobrepõem, e a pesquisa não diz quem está à frente; com 2.401 entrevistas, a diferença de 3 pontos fica abaixo do limite de 3,6.
Votos totais e votos válidos
Muitas pesquisas trazem dois números. Os votos totais incluem brancos, nulos e indecisos. Os votos válidos deixam esses grupos de fora e contam só os votos em candidatos. Pela Constituição, o presidente vence no primeiro turno só com mais da metade dos votos válidos.
Por isso, vale checar qual dos dois números a pesquisa usa antes de comparar candidatos. Comparar pesquisas de institutos diferentes ajuda a ver tendências, mais do que um número isolado.
O que diz o TSE: Segundo a Resolução 23.600, de 2019, toda divulgação deve informar o período da coleta, a margem de erro, o nível de confiança e o número de entrevistas. Também deve dizer quem fez e quem contratou a pesquisa, além do número de registro. A norma foi alterada em 2026 pela Resolução 23.747, segundo o jornal O Liberal.
O que isso significa
Com margem de 2 pontos para cada candidato, uma vantagem de 3 pontos ainda pode ser empate técnico. Quem lê uma pesquisa deve olhar a diferença entre os candidatos, não só o número de cada um. Pesquisas são um retrato do momento das entrevistas, não do resultado final da eleição.
Antes de compartilhar uma pesquisa, confira o número de registro no PesqEle, que qualquer pessoa pode consultar no site do TSE. Se a informação não aparece, o levantamento pode ser irregular.
Como fizemos: Conferimos a Lei 9.504/1997 (artigo 33), a Constituição (artigo 77) e a Resolução TSE 23.600/2019, alterada em 2026, por reportagens e páginas oficiais acessadas em 20 de outubro de 2026; o portal do TSE bloqueou a leitura automática. A margem de erro usa a fórmula para proporções, com 95% de confiança e o pior caso (respostas divididas em 50% e 50%), para amostras de 500 a 2.401 entrevistas. A margem da diferença entre dois candidatos, com 41% e 38%, usa a variância da diferença, e os dados estão em tabela-1.csv. Os cálculos supõem amostra aleatória simples, e pesquisas com ponderação tendem a ter margem maior; não analisamos pesquisas reais.
Correção: uma versão anterior deste texto dizia que o registro deve informar como a amostra foi equilibrada por sexo, idade, escolaridade, renda e região. Não localizamos essa exigência sobre região nas fontes consultadas, e o trecho foi retirado.
Fontes
- Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997), artigos 33 a 35 — Planalto
- Resolução TSE nº 23.600/2019 (pesquisas eleitorais) — TSE (acesso em 20/10/2026; o portal bloqueou leitura automática)
- Resolução TSE nº 23.760/2026 (calendário eleitoral das Eleições 2026) — TSE (acesso em 20/10/2026; datas confirmadas pela reportagem abaixo)
- Constituição Federal, artigo 77 — Planalto
- Tribunal Superior Eleitoral — PesqEle e consulta de pesquisas registradas (acesso em 20/10/2026)
- TSE endurece regras para pesquisas eleitorais em 2026; entenda — O Liberal (acesso em 20/10/2026)
- Calendário das Eleições 2026 é aprovado pelo TSE; veja as datas dos turnos — O Liberal (acesso em 20/10/2026)
- Eleições 2026: pesquisas devem ser registradas na Justiça Eleitoral a partir de 1º de janeiro — TNH1 (acesso em 20/10/2026)
- Como as pesquisas para presidente são confiáveis com apenas 2.400 entrevistados — Gazeta do Povo (acesso em 20/10/2026)
- Margin of Error — Mathwords (acesso em 20/10/2026)
- Datafolha: Lula tem 53% e Bolsonaro 47% — Congresso em Foco (definição de votos válidos e totais; acesso em 20/10/2026)



