Eleições

Margem de 2 pontos: diferença de 3 pontos ainda é empate técnico

Com 2.401 entrevistas e 95% de confiança, a diferença entre dois candidatos precisa passar de cerca de 3,6 pontos para indicar quem está à frente.

Edifício-sede do Tribunal Superior Eleitoral visto de baixo, com a fachada de vidro escuro e a marquise de concreto
Sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), projeto de Oscar Niemeyer, em Brasília, em dezembro de 2025 (foto de arquivo).Foto: Luiz Roberto / TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

Desde 1º de janeiro de 2026, toda pesquisa eleitoral divulgada ao público precisa estar registrada na Justiça Eleitoral até cinco dias antes da divulgação. O registro é feito no PesqEle, o Sistema de Registro de Pesquisas Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A regra está no artigo 33 da Lei das Eleições, a Lei nº 9.504, de 1997.

O primeiro turno foi em 4 de outubro. O segundo turno, se houver, está marcado para 25 de outubro. Este texto faz uma conta que muitas notícias deixam de fora: quando a diferença entre dois candidatos é real.

No PesqEle, a empresa informa quem contratou a pesquisa, quanto ela custou e de onde veio o dinheiro. A Resolução 23.747, de 2026, que atualizou as regras, também exige nota fiscal e a declaração do estatístico responsável. Divulgar pesquisa sem registro gera multa, de R$ 53 mil a R$ 106 mil. Divulgar pesquisa fraudulenta é crime, com pena de detenção de seis meses a um ano, além de multa.

Margem de erro: a conta que muda a leitura

Uma pesquisa entrevista uma amostra, um grupo menor montado para reproduzir o perfil do eleitorado, e não todos os eleitores. Por isso, todo resultado tem uma margem de erro, a faixa em que o número real pode estar. Num exemplo hipotético, um candidato tem 40%, com margem de 2 pontos percentuais (a diferença direta entre dois percentuais). O número real estaria entre 38% e 42%.

O nível de confiança, em geral de 95%, indica a segurança do método. Se a pesquisa fosse repetida 100 vezes, em cerca de 95 delas a faixa incluiria o valor real. Com 2.401 entrevistas, a margem fica em torno de 2 pontos, no pior caso, quando as respostas se dividem ao meio. Quanto maior a amostra, menor a margem, mas o ganho diminui: de 2.000 para 2.401 entrevistas, ela cai só de 2,2 para 2,0 pontos, como mostra a tabela abaixo.

Para separar dois candidatos, a diferença exigida é quase o dobro da margem de cada um Margem de erro em pontos percentuais, com 95% de confiança, por número de entrevistas; diferença calculada para candidatos com 41% e 38%

Entrevistas Margem de cada candidato Diferença exigida entre os dois
500 4,4 7,8
1.000 3,1 5,5
2.000 2,2 3,9
2.401 2,0 3,6

Fonte: cálculo da redação com a fórmula do erro amostral para proporções, com 95% de confiança; tamanho de 2.401 entrevistas como referência de pesquisas presidenciais. Dados em tabela-1.csv. Elaboração: redação.

Na prática, com 2.401 entrevistas, cada candidato tem margem de 2 pontos. Mas a diferença entre os dois precisa passar de 3,6 pontos para indicar, com 95% de confiança, quem está à frente. A margem da diferença fica quase o dobro da margem de cada um.

Empate técnico: quando as faixas se cruzam

O empate técnico acontece quando as faixas de dois candidatos se cruzam. No exemplo de 41% contra 38%, com margem de 2 pontos, a faixa do primeiro vai de 39% a 43%. A faixa do segundo vai de 36% a 40%. As faixas se sobrepõem, e a pesquisa não diz quem está à frente; com 2.401 entrevistas, a diferença de 3 pontos fica abaixo do limite de 3,6.

Votos totais e votos válidos

Muitas pesquisas trazem dois números. Os votos totais incluem brancos, nulos e indecisos. Os votos válidos deixam esses grupos de fora e contam só os votos em candidatos. Pela Constituição, o presidente vence no primeiro turno só com mais da metade dos votos válidos.

Por isso, vale checar qual dos dois números a pesquisa usa antes de comparar candidatos. Comparar pesquisas de institutos diferentes ajuda a ver tendências, mais do que um número isolado.

O que diz o TSE: Segundo a Resolução 23.600, de 2019, toda divulgação deve informar o período da coleta, a margem de erro, o nível de confiança e o número de entrevistas. Também deve dizer quem fez e quem contratou a pesquisa, além do número de registro. A norma foi alterada em 2026 pela Resolução 23.747, segundo o jornal O Liberal.

O que isso significa

Com margem de 2 pontos para cada candidato, uma vantagem de 3 pontos ainda pode ser empate técnico. Quem lê uma pesquisa deve olhar a diferença entre os candidatos, não só o número de cada um. Pesquisas são um retrato do momento das entrevistas, não do resultado final da eleição.

Antes de compartilhar uma pesquisa, confira o número de registro no PesqEle, que qualquer pessoa pode consultar no site do TSE. Se a informação não aparece, o levantamento pode ser irregular.

Como fizemos: Conferimos a Lei 9.504/1997 (artigo 33), a Constituição (artigo 77) e a Resolução TSE 23.600/2019, alterada em 2026, por reportagens e páginas oficiais acessadas em 20 de outubro de 2026; o portal do TSE bloqueou a leitura automática. A margem de erro usa a fórmula para proporções, com 95% de confiança e o pior caso (respostas divididas em 50% e 50%), para amostras de 500 a 2.401 entrevistas. A margem da diferença entre dois candidatos, com 41% e 38%, usa a variância da diferença, e os dados estão em tabela-1.csv. Os cálculos supõem amostra aleatória simples, e pesquisas com ponderação tendem a ter margem maior; não analisamos pesquisas reais.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que o registro deve informar como a amostra foi equilibrada por sexo, idade, escolaridade, renda e região. Não localizamos essa exigência sobre região nas fontes consultadas, e o trecho foi retirado.

Fontes