Economia

Meta fiscal de 2027 depende de R$ 64,8 bi em gastos excluídos

Sem essas exclusões, a sobra prevista para 2027 cai para R$ 18,6 bilhões, pouco mais de um quarto da meta de R$ 73,2 bilhões.

Dois parlamentares conversam à mesa durante reunião da Comissão Mista de Orçamento, com a bandeira do Brasil ao fundo
Reunião da Comissão Mista de Orçamento (CMO), em Brasília, em 20 de agosto de 2015, que discutiu as diretrizes da Lei Orçamentária de 2016 (foto de arquivo).Foto: Geraldo Magela / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Na segunda-feira (31 de agosto), o governo enviou ao Congresso o projeto do Orçamento de 2027, registrado como PLN 24/2026. A sigla significa Projeto de Lei do Congresso Nacional. O texto prevê salário mínimo de R$ 1.741, contra R$ 1.621 hoje, segundo a Agência Senado. Era o último dia do prazo.

A meta fiscal de 2027 só é atingida por causa de uma regra de exclusão. Pela lei, R$ 64,8 bilhões em gastos podem ficar fora do cálculo da meta. Sem essa exclusão, a sobra prevista para 2027 cai para R$ 18,6 bilhões.

O Orçamento federal é organizado por três leis, todas propostas pelo presidente e votadas pelo Congresso, como prevê o artigo 165 da Constituição. O Plano Plurianual (PPA) define metas e programas do governo para quatro anos. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) fixa a meta fiscal e as regras do ano seguinte. A Lei Orçamentária Anual (LOA) é o Orçamento em si: define quanto cada área pode gastar.

Três leis, três prazos

O PPA em vigor, a Lei 14.802, cobre de 2024 a 2027. Cada novo presidente envia o seu até 31 de agosto do primeiro ano de mandato. A LDO deve chegar ao Congresso até 15 de abril e ser votada até 17 de julho. A tabela resume os prazos.

A LDO tem o prazo de votação mais cedo do ciclo: 17 de julho Datas-limite de envio e de aprovação, por lei, no ciclo orçamentário federal

Lei Envio ao Congresso Prazo de aprovação
PPA (plano de quatro anos) 31 de agosto do 1º ano de governo Fim do 1º ano de governo
LDO (metas e regras) 15 de abril 17 de julho
LOA (Orçamento anual) 31 de agosto Fim do ano

Fonte: Câmara dos Deputados (ciclo orçamentário federal e PPA); Agência Senado; Lei 14.802/2024. Elaboração: redação.

Os projetos passam primeiro pela Comissão Mista de Orçamento (CMO), formada por deputados e senadores. Depois, o texto é votado em sessão conjunta do Congresso e segue para sanção do presidente. Segundo a Agência Senado, a LDO de 2027 não tinha sido votada até o fim de agosto. Não encontramos registro de votação posterior nas fontes consultadas.

A meta depende de exclusões

A meta fixada pela LDO é um superávit primário de R$ 73,2 bilhões, ou 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma das riquezas produzidas no país. Superávit primário é a sobra de receitas sobre despesas, sem contar os juros da dívida. Pelo projeto, a sobra prevista chega a R$ 83,4 bilhões, cerca de R$ 10,2 bilhões acima da meta. Esse resultado depende de exclusões: R$ 64,8 bilhões em gastos saem da conta.

O gráfico compara os três valores.

Gráfico de barras mostra que a sobra de 2027 é de R$ 83,4 bilhões com exclusões, acima da meta de R$ 73,2 bilhões, e cai para R$ 18,6 bilhões sem exclusões Fonte: Agência Brasil, com dados do PLN 24/2026 (Orçamento de 2027). Elaboração: redação.

Sem as exclusões, a sobra efetiva cai para R$ 18,6 bilhões, ou 0,13% do PIB. Isso equivale a pouco mais de um quarto da meta. Nossas contas mostram que as exclusões respondem por 78% da sobra projetada. Segundo a Agência Câmara, travas de despesa devem reduzir gastos obrigatórios em R$ 18 bilhões em 2027.

O que pode mudar até a votação

O salário mínimo pode subir antes da votação. O reajuste segue o INPC, índice de inflação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Se a inflação medida pelo INPC superar a previsão até novembro, o governo envia uma correção no início de dezembro, segundo a Agência Brasil. A alta prevista é de R$ 120 por mês, ou 7,4%. Em um ano, isso soma R$ 1.440, sem contar o 13º salário.

Se o Orçamento não for votado e sancionado até 31 de dezembro, o governo fica limitado. Em dezembro de 2024, a Agência Senado explicou que, sem o Orçamento de 2025 aprovado, só despesas essenciais ou obrigatórias poderiam ser feitas. Cada mês de atraso limita o gasto a um doze avos do valor previsto no projeto.

O que diz o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO): Segundo a Agência Brasil, o ministro Bruno Moretti afirmou que “uma das nossas mensagens centrais é que, no próximo ano, teremos um Orçamento equilibrado”. O ministério informou que os limites do Artigo 14 gerarão economia adicional de R$ 8,9 bilhões. Nas fontes consultadas, não localizamos manifestação do MPO sobre o peso das exclusões na meta.

O que isso significa

A meta de 2027 é cumprida nas contas do governo, mas só com exclusões de gastos. Sem elas, a sobra fica em pouco mais de um quarto do valor fixado. A diferença de R$ 64,8 bilhões separa o número oficial do resultado sem ajustes.

O que vem a seguir é a votação da LDO e, depois, a do Orçamento. O Congresso encerra a sessão legislativa em 22 de dezembro, e a LOA precisa ser aprovada até o fim do ano para evitar regras provisórias. O Orçamento de 2027 será executado pelo presidente que tomar posse em 5 de janeiro de 2027. O texto ainda pode mudar no Congresso.

Como fizemos: Usamos o projeto do Orçamento de 2027 (PLN 24/2026), conforme as Agências Senado, Brasil e Câmara de agosto de 2026, e os prazos legais da Constituição e da Lei 14.802/2024, acessados em 20 de outubro de 2026 (parte deles conferida em buscas, não no texto integral). Calculamos a diferença entre sobra e meta (R$ 83,4 bi − R$ 73,2 bi), a parcela das exclusões (R$ 64,8 bi ÷ R$ 83,4 bi), a sobra sem exclusões frente à meta (R$ 18,6 bi ÷ R$ 73,2 bi), o aumento do mínimo (R$ 120 ÷ R$ 1.621) e o efeito anual (R$ 120 × 12). Os valores são projeções do governo para 2027, sem comparação entre anos, por isso não há correção pela inflação, e não mostram o resultado final, que depende da votação. Os dados do gráfico e da tabela estão salvos em CSV junto ao artigo.

Fontes