PF vê 'divergência severa' no dinheiro do caso Dark Horse de Flávio
Segundo a PF, mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil no caso Dark Horse e só US$ 2,8 milhões voltaram registrados; Flávio é investigado no STF.

A Polícia Federal (PF) apontou uma “divergência severa” no dinheiro ligado ao caso Dark Horse. Segundo a PF, mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, mas só US$ 2,8 milhões voltaram registrados. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF). Ele não é réu.
No dia 16 de outubro, a PF pediu mais 90 dias para concluir a investigação. Até agora, o ministro André Mendonça não decidiu sobre o prazo.
O caso em poucas linhas
O caso começou com uma promessa de dinheiro para um filme. Segundo o Intercept, o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para um filme sobre o pai de Flávio, Jair Bolsonaro. Em julho de 2026, o ministro André Mendonça incluiu Flávio como investigado, a pedido da PF e com a concordância da Procuradoria-Geral da República (PGR), segundo a Agência Brasil. Eduardo Bolsonaro também é alvo.
A suspeita é de três crimes. Lavagem de dinheiro é esconder a origem de recursos ilegais para que pareçam legais. Evasão de divisas é mandar dinheiro para fora do país sem declarar às autoridades. Corrupção é oferecer ou receber vantagem em troca de um ato ligado a um cargo público.
Quanto saiu e quanto voltou
Segundo o Intercept, pelo menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025. Depois, esse valor foi rastreado em US$ 12,3 milhões. O destino foi a Havengate, uma estrutura inativa no Texas ligada ao advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto. A tabela mostra o caminho do dinheiro.
Caminho do dinheiro no caso Dark Horse Valores em dólares, segundo a PF e o Intercept, 2025 e 2026
| Etapa | Valor (US$) | Situação |
|---|---|---|
| Prometido por Vorcaro | 24 milhões | Compromisso, segundo o Intercept |
| Pago ao destino, ao menos | 10,6 milhões | Entre fevereiro e maio de 2025 |
| Total rastreado depois | 12,3 milhões | Apuração posterior |
| Saiu do Brasil | mais de 12 milhões | Segundo a PF |
| Retorno registrado | 2,8 milhões | Segundo a PF |
| Diferença | mais de 9 milhões | Cálculo da redação |
Fonte: Intercept; PF, citada pela ConJur e pelo O Povo/DW. Diferença: cálculo da redação.
A PF chamou essa diferença de “severa”. Na conta da redação, o retorno registrado equivale a menos de 23% do valor que saiu: US$ 2,8 milhões sobre mais de US$ 12 milhões. Ou seja, a maior parte do dinheiro enviado ao exterior não aparece como retorno nos dados citados. Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça apoio dos Estados Unidos para rastrear os valores. Flávio atribui a diferença a um contrato que, segundo ele, não foi cumprido.
Mensagens e versões
Em 8 de setembro de 2025, Flávio cobrou Vorcaro por pagamentos atrasados. Em 16 de novembro, véspera da prisão do banqueiro, ele enviou uma mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.
A versão mudou no mesmo dia. Em 13 de maio de 2026, pela manhã, Flávio chamou a história de “mentira”. À noite, confirmou ter pedido “patrocínio privado” para um filme privado. Ele negou ter oferecido algo em troca ou usado dinheiro público.
A Lupa classificou como falsa a afirmação de Flávio de que os detalhes do contrato e do fundo já tinham sido mostrados. O Aos Fatos contou 43 declarações falsas dele sobre Vorcaro.
O que fica em aberto
Com o prazo de 90 dias pedido pela PF, a investigação não deve terminar antes do segundo turno, em 25 de outubro. Até lá, o dado documentado é este: mais de US$ 12 milhões saíram do país e US$ 2,8 milhões voltaram registrados. A explicação do contrato não cumprido ainda não foi esclarecida pela investigação.
Flávio é investigado, não réu. Investigação e acusação são etapas diferentes, e nenhuma delas é condenação. Mas o eleitor vai às urnas sem saber onde foi parar a maior parte do dinheiro que o candidato pediu ao banqueiro. A investigação ainda não esclareceu o destino desses valores. E, segundo a Lupa, os detalhes do contrato e do fundo nunca foram mostrados, ao contrário do que Flávio afirmou.
O que diz Flávio Bolsonaro: Segundo a CNN Brasil, em 16 de outubro ele afirmou que o dinheiro de Vorcaro para o Dark Horse era lícito e privado, e que o mandato de senador não deu nada ao banqueiro. Ele atribui a diferença de valores a um contrato que não foi cumprido. Em 13 de maio, segundo o Poder360, confirmou o pedido de “patrocínio privado” e negou ter oferecido contrapartida ou usado dinheiro público.
Como fizemos: Usamos reportagens do Intercept (maio e julho de 2026), dados da PF citados pela ConJur e pelo O Povo/DW (18 e 19 de outubro) e as respostas de Flávio publicadas pela CNN Brasil e pelo Poder360, acessadas em 21 de outubro de 2026. A diferença de mais de US$ 9 milhões e a proporção de menos de 23% são cálculos nossos, feitos a partir de US$ 12 milhões e US$ 2,8 milhões. Não temos acesso aos autos nem aos extratos, e os valores são os que a PF e as reportagens divulgaram.
Fontes
- Intercept: áudio em que Flávio negociou com Vorcaro milhões
- Agência Brasil: Mendonça incluiu Flávio Bolsonaro como investigado no caso Dark Horse
- CNN Brasil: PF aciona MJ por cooperação com EUA para rastrear dinheiro de Dark Horse
- ConJur: PF pede prorrogação de inquérito sobre financiamento do Dark Horse
- O Povo/DW: “Dark Horse”: PF aponta divergência “severa” entre recursos enviados ao exterior
- Poder360: Flávio confirma pedido de dinheiro a Vorcaro, mas diz que era privado
- CNN Brasil: Flávio diz que dinheiro de Vorcaro para Dark Horse era lícito e privado
- Lupa: checagem da entrevista de Flávio Bolsonaro ao Jornal Nacional
- Aos Fatos: Flávio mentiu ao menos 43 vezes sobre envolvimento com Vorcaro



