Opinião

Quem perder o segundo turno precisa reconhecer o resultado

Lula e Flávio Bolsonaro disseram que aceitam o resultado, mas nenhum repetiu a promessa após o primeiro turno, segundo o que encontramos.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Meridiano.

Urna eletrônica modelo UE2020, da Justiça Eleitoral, com tela escura e teclado numérico sobre uma base branca
Urna eletrônica modelo UE2020, usada pela Justiça Eleitoral nas eleições brasileiras.Foto: Antonio Augusto / Secom/TSE / Wikimedia Commons (domínio público)

No domingo, 25 de outubro, os brasileiros escolhem entre Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), e Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL). No primeiro turno, Flávio teve 47,04% dos votos válidos e Lula, 45,15%, com 99,97% das urnas apuradas, segundo a Agência Senado.

Este jornal defende que quem perder o segundo turno reconheça o resultado, sem condições. A mesma exigência vale para os dois lados.

O que cada candidato disse

Flávio Bolsonaro foi o mais direto. Em entrevista ao programa Canal Livre, da TV Band, no domingo, 2 de agosto, disse: “Eu vou aceitar. Vou concorrer com essas regras”. Ele acrescentou que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) “vai ser um TSE imparcial”, diferente de 2022.

A ressalva está nessa segunda frase. Segundo a Revista Fórum, ao ligar a aceitação à imparcialidade do tribunal, Flávio sugeriu que a eleição de 2022 não foi legítima. Os relatos da entrevista não trazem prova dessa diferença. Ele disse ainda pedir “mais segurança e transparência”, sem apontar falhas nas urnas.

Lula deu uma resposta mais geral. Em entrevista à revista alemã Der Spiegel, publicada em abril de 2026, disse: “Quando o povo toma uma decisão… temos que aceitar esse resultado”. A fala foi dada antes do primeiro turno e não cita as urnas.

Não encontramos, nas fontes consultadas, nova declaração de Lula sobre aceitar o resultado depois do primeiro turno. Também não localizamos, para o segundo turno, uma nova promessa de Flávio sem condições.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em 2 de agosto de 2026, no Canal Livre, disse que vai aceitar o resultado e que pede mais segurança e transparência nas eleições. Não encontramos declaração posterior dele sobre o resultado do segundo turno.

Ressalva não é compromisso

Aceitar o resultado é uma obrigação, não uma opção. Quem aceita, mas espera um tribunal “imparcial” para isso, deixa aberta a porta para contestar a derrota. Isso enfraquece o compromisso, qualquer que seja o lado.

A mesma régua vale para Lula. A frase de abril defende o princípio, mas é genérica. Ela não diz o que ele faria se perdesse no domingo, e Lula não se manifestou, nas fontes consultadas, sobre a confiança nas urnas.

Usar a Justiça para disputar fatos é o caminho previsto. A coligação de Lula fez isso em setembro, ao levar ao TSE uma ação de investigação judicial eleitoral (AIJE) contra Flávio. A ação pede a cassação do registro ou do diploma dele.

O argumento contrário é sério. A Constituição permite contestar um mandato na Justiça Eleitoral. O artigo 14, parágrafo 10, prevê a ação de impugnação de mandato eletivo em até 15 dias após a diplomação, com provas de abuso do poder econômico, corrupção ou fraude.

Quem perde, portanto, tem caminho legal. A pergunta não é se pode contestar, mas se há prova. Sem prova, questionar a urna é acusar o sistema sem demonstrar nada.

A experiência de 2014 mostra o limite. O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) pediu ao TSE uma auditoria da eleição presidencial. Em 4 de novembro, o tribunal negou, por unanimidade, a criação de uma comissão de auditoria, mas liberou os dados ao partido. O ministro Dias Toffoli disse que o pedido não revelava “ato concreto nem indício de fraude”.

Em 2015, a própria auditoria do partido não encontrou prova conclusiva de fraude. Ela afirmou, porém, que o sistema “não permite a plena auditagem”. Essa crítica técnica é legítima e deve ir ao tribunal com dados. A dúvida sem prova, repetida ao eleitor, é outra coisa.

O sistema já tem verificações. O teste de integridade compara votos definidos antes com o que a urna registra. Os votos são digitados na urna e anotados à parte, e o resultado é comparado com esses registros, segundo o Times Brasil. O Tribunal de Contas da União (TCU) acompanha os testes e entrega relatório ao TSE em até 30 dias após o segundo turno.

Segundo o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), a urna não é conectada à internet, Wi-Fi ou Bluetooth durante a votação. Esses dados são públicos e verificáveis. Eles são o ponto de partida para qualquer questionamento sério.

Domingo, a urna dirá quem venceu. Este jornal defende que o perdedor reconheça o resultado, sem ressalvas, e que eventual contestação siga pela Justiça Eleitoral, com prova e dentro do prazo. Lula e Flávio já disseram que aceitam. Falta repetir a promessa sem condições antes da apuração.

Como fizemos: Usamos entrevistas e reportagens citadas em Fontes, acessadas em 22 de outubro de 2026, além do texto da Constituição citado em reportagem jurídica. Não localizamos declarações de Lula ou de Flávio sobre aceitar o resultado após o primeiro turno. Os trechos de 2014 e 2015 vêm de reportagens da época e do próprio partido.

Fontes