Opinião

Negativas por dados pessoais somaram 1.339 em 2023; regra precisa de limite

Negativas por dados pessoais não equivalem a sigilo de 100 anos, diz a CGU, mas a regra ainda precisa de critérios claros e revisão independente.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Meridiano.

Pátio com palmeiras e o prédio histórico do Arquivo Nacional ao entardecer, com iluminação acesa
Sede do Arquivo Nacional, na antiga Casa da Moeda, no Rio de Janeiro, ao entardecer de 11 de setembro de 2025.Foto: SouDiana / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 2023, o governo federal negou 1.339 pedidos de informação com a justificativa de que continham dados pessoais. Em 2022, foram 1.332. Os números são da Controladoria-Geral da União (CGU) e foram publicados em março de 2024 pelo jornal Correio.

Esse número costuma ser lido como sigilo de cem anos. Negativa e sigilo de cem anos, porém, não são a mesma coisa, e a diferença muda o tamanho do problema.

A regra está no artigo 31 da Lei de Acesso à Informação (LAI), de 2011. Ela protege a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, por até cem anos a partir da produção do documento. Uma portaria da CGU, de setembro de 2024, presume prazo de 15 anos quando a decisão não indica outro. O Meridiano reconhece a importância dessa proteção, mas ela vem sendo esticada para esconder atos de interesse público.

Um escudo usado por governos diferentes

O problema atravessa governos. Na gestão de Jair Bolsonaro, o Exército manteve em sigilo de cem anos o processo sobre a ida do general Eduardo Pazuello a um ato político, em 2021. Em fevereiro de 2023, a CGU mandou liberar o documento: para o órgão, a apuração já estava concluída e o processo deveria ser público. Pazuello havia sido absolvido.

No governo Lula, o sigilo de 100 anos também atingiu a agenda da primeira-dama, Janja. Segundo o Correio, a lista de militares em serviço em 8 de janeiro de 2023 também entrou nesses pedidos. O recorde de negativas por dados pessoais é de 2013, no governo Dilma Rousseff, com 3.732, segundo a CGU. Em julho de 2026, Lula disse ser “radicalmente contra sigilo de 100 anos”, mas afirmou que essas decisões não chegam à Presidência.

Os números pedem cuidado

A CGU diz que vincular as 1.339 negativas de 2023 a sigilo de cem anos está errado. Segundo o órgão, a maioria dessas recusas exigiria trabalho adicional e excessivo para tratar os dados. O ministro Vinícius Marques de Carvalho reconheceu, em audiência, que o prazo de 100 anos pode virar, na prática, um sigilo quase eterno.

Os números de 2025 mostram outra escala. Segundo o balanço anual da LAI, a CGU aplicou sigilo de 100 anos a 77 pedidos, cerca de 0,06% dos 122 mil respondidos no ano. Os dois indicadores medem coisas diferentes, como mostra a tabela abaixo. Não localizamos série oficial que os reúna para os mesmos anos.

Negativas e sigilos de 100 anos são medidas diferentes Número de pedidos de acesso à informação, por ano, de 2013 a 2025

Ano Negativas por dados pessoais Sigilo de 100 anos aplicado
2013 3.732 —
2022 1.332 —
2023 1.339 —
2025 — 77

Fonte: CGU, via Correio (2013, 2022 e 2023) e Portal de Prefeitura (2025). “—” indica dado não localizado. Elaboração: redação.

Limites que a lei já prevê

A própria lei traz limites. Pelo artigo 31, a restrição não pode ser usada para prejudicar apuração de irregularidades em que o titular esteja envolvido. Quem defende a restrição atual lembra que a Constituição protege a intimidade e a vida privada, e que expor dados de servidores pode gerar assédio. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) reforçou esse cuidado com dados de saúde e endereço.

Para aplicar esses limites de forma previsível, o Meridiano propõe três mudanças. Primeiro, uma lista do que não é informação íntima, como agendas oficiais e gastos públicos. Segundo, a liberação parcial: CPF (cadastro de pessoa física), endereço e dados de saúde são ocultados, e o resto é entregue. Terceiro, uma revisão independente, fora do Poder Executivo: hoje, os recursos passam pela CGU e pela Comissão Mista de Reavaliação de Informações (CMRI), que a Casa Civil preside.

O que diz a CGU: Segundo reportagens de 2024, o órgão disse que a gestão anterior usou o sigilo de 100 anos de forma indevida, mas que há casos em que ele se justifica. Em setembro de 2024, editou portaria que presume prazo de 15 anos quando a decisão não indica outro. Em janeiro de 2025, enviou à Casa Civil projeto que limita o sigilo de dados pessoais a cinco anos após a morte do titular, segundo o Poder360.

O que isso significa

A regra pode fazer uma negativa virar, na prática, um sigilo de cem anos. Desde a portaria de 2024, prazos acima de 15 anos precisam de justificativa, e em 2025 o sigilo de cem anos atingiu 77 pedidos, segundo a CGU. O projeto de 2025 não tem registro, nas fontes consultadas, de chegada ao Congresso.

Privacidade e transparência não são inimigas. O que serve ao público deve ser público, e o que é íntimo deve continuar protegido. Uma regra clara, que valha para qualquer governo, é a melhor forma de impedir que o sigilo vire instrumento de quem está no poder.

Como fizemos: Usamos as negativas por dados pessoais de 2013, 2022 e 2023, reportadas pelo Correio em março de 2024 com base na CGU, e os 77 pedidos com sigilo de 100 anos em 2025, citados pelo Portal de Prefeitura a partir do balanço anual da LAI. Reportagens, notas da CGU e o texto da lei foram acessados em 21/10/2026; não tivemos acesso aos dados abertos do órgão, então não conferimos as séries ano a ano. A variação de 2022 para 2023 é de 7 negativas (0,5%), mas a CGU citou queda de 15,7% no período, número que não conseguimos reconciliar com os valores publicados. São contagens, sem valores em dinheiro, e não mostram quantas negativas de 2023 resultaram em sigilo de cem anos.

Correção: uma versão anterior deste texto dizia que a CGU liberou parcialmente o processo sobre Pazuello, o que as fontes consultadas não confirmam. Também tratava cada negativa por dados pessoais como sigilo de cem anos, equivalência que a CGU contesta.

Fontes