Cortar reajuste do INSS e do BPC não é projeto de país
Opinião: desvincular aposentadorias e BPC do salário mínimo atinge cerca de 21,9 milhões de benefícios pagos no piso do INSS.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Meridiano.

Opinião. Este jornal defende que cortar o reajuste de aposentadorias e do BPC não é projeto de país.
Cerca de 21,9 milhões de benefícios pagos pelo INSS têm valor igual ao piso previdenciário, de R$ 1.621 em 2026. Os dados aparecem em reportagem do Poder360 de 6 de janeiro, que cita o instituto. São mais de 60% dos benefícios do regime geral.
A proposta em estudo pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL) mexe com essa conta. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, republicada por outros veículos no início de outubro, a ideia é desvincular os reajustes dos ganhos reais do salário mínimo.
Quem recebe o piso
Hoje, quando o salário mínimo cresce acima da inflação, os benefícios de valor mínimo também crescem. A Constituição, no artigo 201, parágrafo 2º, proíbe que benefício que substitua a renda do trabalho seja pago abaixo do mínimo. O piso é uma garantia constitucional, não um favor de um governo.
Os números mostram o tamanho da conta. Há 35,15 milhões de benefícios ativos no regime geral. O BPC, pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, também entra na proposta em estudo.
Quem depende dos benefícios e das transferências Valores mais recentes encontrados em fontes oficiais ou técnicas, por indicador
| Indicador | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Benefícios do regime geral no piso de R$ 1.621 | cerca de 21,9 milhões | Poder360 (jan. 2026), com dados do INSS |
| Benefícios ativos do regime geral | 35,15 milhões | Poder360 (jan. 2026) |
| Receita corrente dos municípios nordestinos vinda de transferências (2023) | 90,17% | FGV IBRE, com dados do Tesouro Nacional |
| Gasto do regime geral em 2025 | R$ 1,027 trilhão | IFI (maio de 2026) |
Fontes: Poder360; Instituição Fiscal Independente (IFI); FGV IBRE. Elaboração: redação.
O dado de transferências não mede a Previdência. Mostra, porém, que as cidades nordestinas, em média, dependem de dinheiro federal e estadual para funcionar. Nesse quadro, qualquer corte de reajuste pesa sobre a renda de quem vive nessas cidades.
O presidente Lula afirmou, em vídeos, que Flávio cortará programas sociais. A campanha nega essa leitura e diz que as propostas ainda não são compromisso de governo.
O argumento fiscal, dito com justiça
Quem defende o ajuste tem um argumento com números. Segundo a IFI, o gasto do regime geral chegou a R$ 1,027 trilhão em 2025. Isso equivale a 8,1% do PIB e a 42,9% de toda a despesa primária da União, ou seja, do gasto antes do pagamento de juros da dívida.
Esse peso é real. Gastos com saúde e educação também têm pisos ligados à receita, o que reduz a margem de escolha do governo. Esse problema deve ser discutido sem tabu.
A campanha respondeu, em nota, que as discussões não são compromissos oficiais da candidatura e que as propostas não constam do plano de governo registrado. Flávio disse que não fará “economia em cima de quem precisa” e afirmou que o país tem outras fontes de receita, como o combate à corrupção.
Mas um problema real não define a solução. Este jornal defende que o ajuste não comece por quem recebe o piso. Há outras escolhas no orçamento, e a própria campanha citou a corrupção como fonte de recursos.
O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: Em nota, a campanha afirmou que a orientação econômica da candidatura não é definida por relatos de terceiros e que as propostas não constam do plano registrado. Flávio disse: “Aposentado, fique tranquilo.”
Este jornal defende que a Previdência seja tratada como conquista nacional, ao lado do SUS e da educação pública. Discutir gasto é legítimo. Mas a conversa deve começar por quem recebe o piso e por onde ele vive, não só pela planilha.
Como fizemos: Usamos a reportagem da Folha sobre a proposta, citada pelo Diário de Pernambuco e pela TNH1 em 8 de outubro de 2026, além de dados do Poder360 (6 de janeiro de 2026), do Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 112 da IFI (21 de maio de 2026) e do FGV IBRE com dados do Tesouro Nacional de 2023. Acessados em 22 de outubro de 2026. Calculamos que 21,9 milhões de 35,15 milhões equivalem a cerca de 62%. Não encontramos a reportagem original da Folha nem dados que mostrem quantos municípios dependem especificamente do INSS. O indicador de transferências inclui todas as fontes federais e estaduais, não só a Previdência.
Fontes
- Flávio considera limitar reajuste de aposentadorias e BPC — Diário de Pernambuco (cita a Folha)
- Publicamente, Flávio Bolsonaro defende reajuste de aposentadorias acima da inflação — TNH1 (Folhapress)
- Flávio nega corte em aposentadorias — Agora RN
- Em vídeos, Lula diz que Flávio cortará programas sociais — DGABC
- INSS reajusta piso previdenciário para R$ 1.621 em 2026 — Poder360 (acesso em 22/10/2026)
- Previdência consome R$ 1 tri e 42,9% da despesa da União — Poder360 (cita a IFI) (acesso em 22/10/2026)
- Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 112 — Instituição Fiscal Independente (IFI) (acesso em 22/10/2026)
- Transferências intergovernamentais e receita dos municípios nordestinos — Blog do IBRE/FGV (acesso em 22/10/2026)
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — Planalto (acesso em 22/10/2026)
- Fachada do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) — Wikimedia Commons (foto: Jefferson Rudy / Agência Senado, CC BY 2.0)



