Itamaraty fez bem em reagir a Milei: a eleição é dos brasileiros
Ao questionar as urnas e chamar Lula de ladrão a cinco dias do segundo turno, Milei tentou interferir na eleição. O Itamaraty reagiu com razão.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Meridiano.

Na terça-feira (20), o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) acusou o presidente da Argentina, Javier Milei, de tentar interferir na eleição brasileira. A nota saiu cinco dias antes do segundo turno, marcado para domingo (25). Este jornal defende que o Itamaraty acertou. A decisão sobre o futuro do Brasil cabe aos brasileiros, e nenhum governo estrangeiro deve tomá-la para si.
No mesmo dia, Milei publicou no X uma mensagem contra o presidente Lula. Em espanhol, escreveu: “Espero que su último truco de campaña sucia no incluya robarse la elección… zurdo ladrón”. Em tradução nossa: “Espero que o último truque sujo de campanha não inclua roubar a eleição… esquerdista ladrão”.
Não foi a primeira vez. Em 25 de julho, Milei participou da convenção do PL, em São Paulo, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Segundo o Correio Braziliense, ele fez ofensas ao governo e ao Judiciário durante a visita. Em 26 de julho, o Itamaraty repudiou as falas, convocou o embaixador argentino, Daniel Raimondi, e chamou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli.
O que a nota diz e por que importa
Na nota, o Itamaraty afirma que as ofensas de Milei constituem “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”. Desta vez, segundo o texto, elas foram “dirigidas ao Poder Judiciário e ao sistema de voto eletrônico”.
Ingerência é a intromissão de um governo nos assuntos internos de outro país. Esse é o centro da disputa.
Há uma mudança em relação a julho. Naquela nota, o Itamaraty falou em “episódio infamante”. Agora, o alvo é o processo de votação, a poucos dias do voto. Essa diferença explica o tom mais duro.
O texto também defende as urnas. Segundo a nota, o sistema brasileiro de voto eletrônico “é comprovadamente seguro, nunca registrou irregularidades”. O Itamaraty diz ainda que Milei “reitera mentiras difundidas por aqueles que perderam as eleições”, e associa essas falas a quem contestou o resultado de 2022.
A Constituição trata do assunto no plano dos princípios. O parágrafo único do artigo 1º diz que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. O artigo 4º põe a “independência nacional” e a “não-intervenção” entre os princípios que regem as relações internacionais do país. Um chefe de Estado estrangeiro, isto é, o líder máximo de outro país, que pede desconfiança nas urnas e chama o adversário de ladrão entra nesse terreno.
O argumento contrário merece resposta
O melhor argumento do outro lado é este. Milei é chefe de Estado de um país livre e pode dizer o que pensa. Governos se manifestam sobre a política de outros países com frequência, e a afinidade ideológica entre eles é normal. Impedir a fala de um presidente estrangeiro seria censura.
A resposta está no conteúdo, não na opinião em si. Milei não comentou uma lei ou um programa de governo brasileiro. Ele chamou o adversário de ladrão e questionou a máquina de votação a cinco dias da eleição. Quem decide se acredita nisso é o eleitor brasileiro, e não um presidente de outro país.
O princípio também vale para governos aliados do Brasil. Se a soberania valesse só contra governos adversários, não seria princípio, seria tática. Um país que se respeita não aceita tutela de vizinho, de aliado ideológico ou de inimigo. A regra protege todo eleitor, inclusive quem discorda do presidente Lula.
O que diz Javier Milei: Em publicação no X, no dia 20 de outubro, ele escreveu que espera que o “último truco de campaña sucia” de Lula “no incluya robarse la elección”. Até a publicação deste texto, não encontramos resposta dele nem do governo argentino à nota do Itamaraty.
A nota usa palavras duras, como “inaceitável” e “mentiras”. Elas pesam, e o Itamaraty as assumiu em nome do Estado. Mas os fatos que as sustentam estão na publicação, no momento escolhido e no conteúdo: uma crítica às urnas a cinco dias do voto.
No domingo (25), os brasileiros decidem. O Itamaraty defendeu que essa decisão fique com eles. Essa é a posição certa, e deve valer para qualquer governo estrangeiro, de qualquer lado. A eleição é dos brasileiros.
Como fizemos: Este texto é opinião da redação. Usamos a nota do Itamaraty de 20 de outubro de 2026, conferida em mais de uma reportagem que a reproduz, a publicação de Milei no X, citada pelas reportagens, e o texto da Constituição, consultados em 22 de outubro de 2026. Não tivemos acesso à íntegra da nota no site do Itamaraty. O texto constitucional foi conferido em reproduções, porque o site do Planalto não respondeu à consulta.
Fontes
- Itamaraty reage a Milei e o acusa de tentar interferir nas eleições brasileiras — Estado de Minas
- Itamaraty repudia novos ataques de Milei às urnas e denuncia tentativa de ingerência nas eleições brasileiras — Brasil 247
- Esquerdista ladrão: Milei acusa Lula de truque sujo para roubar eleição — ND Mais
- Itamaraty diz que Milei repete mentiras de quem tentou golpe — SBT News
- Javier Milei acusado de tentar interferir nas eleições no Brasil — Observador
- Em nota, Itamaraty repudia Milei e cita comportamento infamante — Correio Braziliense
- Injerencia inaceptable: la dura respuesta de Brasil tras los insultos de Javier Milei a Lula — Los Andes
- Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 — Planalto



