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Opinião: data center só é soberania com energia e valor no Brasil

Exigir geração própria é um começo, mas regras precisam impedir repasse de custos e transformar investimento digital em emprego e capacidade nacional.

Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Fileiras de servidores com luzes azuis em um centro de processamento de dados
Sala de servidores da BalticServers, em 2013; centros de processamento de dados concentram computadores e sistemas de refrigeração.Foto: BalticServers.com / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estabeleceu na sexta-feira (6) um critério indispensável para atrair data centers: quem vier investir deverá construir a própria energia. “Não vai ser a energia do povo que vai ser utilizada para data center”, afirmou.

A declaração acerta ao tratar eletricidade como patrimônio de desenvolvimento nacional. O Meridiano defende que esse critério se transforme em regra pública clara. A exigência, porém, precisa abranger custos de rede, geração adicional, empregos e transferência de tecnologia.

Data centers são instalações que reúnem servidores, armazenamento e refrigeração para processar dados. Eles sustentam serviços digitais e sistemas de inteligência artificial. A atividade pode gerar investimento, mas também cria uma demanda elétrica concentrada e permanente.

Energia nova, não apenas rótulo renovável

A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que essas instalações consumiram 415 terawatts-hora em 2024. A unidade mede energia acumulada ao longo de um período. No cenário principal da agência, o consumo global chegará a 945 terawatts-hora em 2030.

Consumo de data centers deve mais que dobrar até 2030 Eletricidade global usada pelo setor e participação renovável na oferta brasileira

Indicador Ano Valor
Consumo global de data centers 2024 415 TWh
Projeção de consumo global 2030 945 TWh
Participação renovável na eletricidade brasileira 2025 86,8%

Fonte: Agência Internacional de Energia e Empresa de Pesquisa Energética. Elaboração: redação.

O Brasil tem vantagem real: 86,8% da oferta interna de eletricidade veio de fontes renováveis em 2025, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Essa característica pode atrair empresas interessadas em reduzir emissões. Não autoriza, entretanto, socializar os custos de um grande consumidor privado.

Gerar energia própria deve significar adicionar capacidade ao sistema. Não pode se resumir à compra de certificados ligados a usinas já existentes, enquanto a rede e os demais consumidores absorvem novos investimentos. Contratos precisam demonstrar origem, prazo e responsabilidade pelas obras.

A exigência também deve incluir transmissão e distribuição. Uma usina nova não elimina gastos com conexão, reforço de linhas e segurança do sistema. Reguladores precisam publicar esses custos e definir quem os paga antes da autorização.

Investimento precisa deixar capacidade nacional

Há um contrapeso legítimo. Regras imprevisíveis podem afastar capital e adiar projetos. A AIE observa que um data center pode ficar pronto em dois ou três anos, enquanto infraestrutura elétrica costuma exigir prazos maiores. O planejamento precisa unir os dois cronogramas.

Essa dificuldade não justifica renunciar ao interesse público. Ao contrário, recomenda licenças com prazos conhecidos, critérios técnicos estáveis e fiscalização independente. Previsibilidade para investidor e proteção ao consumidor são objetivos compatíveis.

Soberania digital também não se limita ao fornecimento elétrico. O Brasil deve negociar formação de trabalhadores, pesquisa, fornecedores locais e capacidade de processamento voltada a serviços nacionais. Um galpão de servidores com poucos empregos permanentes não pode ser vendido como política industrial completa.

O consumo de água merece o mesmo exame. Empreendimentos devem informar refrigeração, captação e impactos sobre comunidades. Dados operacionais agregados precisam ser públicos, sem expor segredos comerciais ou fragilidades de segurança.

A localização dos projetos também pode servir ao desenvolvimento regional. Municípios do interior podem receber infraestrutura e formação profissional, mas precisam participar das decisões. A escolha não deve ocorrer apenas onde a energia pública já está disponível sem custo adicional para o investidor.

O poder de compra do Estado pode reforçar essa estratégia. Universidades, órgãos públicos e empresas estatais contratam processamento e armazenamento. Suas licitações deveriam valorizar segurança, eficiência e capacidade de atendimento em português, além do preço.

Contratos públicos também devem exigir relatórios independentes de consumo e eficiência. Assim, o contribuinte poderá comparar benefícios anunciados com resultados medidos, sem depender apenas do marketing das empresas.

O que diz o governo: Na reunião do Conselho Nacional de Política Energética, Lula afirmou que o país quer atrair data centers, mas exigirá que produzam a energia consumida. A declaração foi divulgada pela Agência Brasil e ainda não detalha uma regra regulatória.

A posição presidencial abre uma decisão de Estado, não uma autorização automática. Ministérios, agências e Congresso devem transformar o princípio em exigências verificáveis. A regra precisa valer para incentivos, conexão à rede e compras públicas de computação.

O Brasil pode e deve disputar investimento digital. A soberania estará na capacidade de dizer como esse investimento serve ao país. Energia nova, custos transparentes e conhecimento nacional formam o preço mínimo de entrada.

Como fizemos: Confrontamos a declaração presidencial de 6 de novembro com o relatório Energy and AI, da AIE, e o Balanço Energético Nacional 2026. Os dados globais são projeções sujeitas a incerteza e não estimam a demanda brasileira. A análise editorial distingue a matriz renovável atual da necessidade de geração adicional para novos consumidores.

Fontes