Dólar alto beneficia exportador do campo e encarece adubo e diesel
Soja e café vendidos em dólar rendem mais em reais. Adubo, diesel e trigo importados ficam mais caros, e o efeito pode chegar à comida.

Na abertura desta segunda-feira (26), o dólar comercial subiu 8,65%, a R$ 5,425, às 9h09. Às 10h33, a alta chegava a 12,12%, a R$ 5,597, segundo a InfoMoney.
O movimento seguiu a reeleição de Lula, no domingo (25). Às 9h57, a B3, a Bolsa brasileira, suspendeu os negócios à vista por 30 minutos, após queda forte do Ibovespa, principal índice de ações.
Para o agro, a alta do dólar tem dois lados. Quem vende em dólar recebe mais reais por cada unidade exportada. Quem compra insumos em dólar paga mais reais pelo mesmo produto.
Em setembro, as exportações do agronegócio subiram 4,8%, ou US$ 0,32 bilhão, sobre setembro de 2025, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A soja cresceu 11,9%, e o café, 8,7%.
Quem ganha: soja e o interior que vende
A safra ajuda. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a soja de 2025/26 em 180,4 milhões de toneladas, recorde da série, com alta de 5,2%. A estimativa é do 12º e último levantamento, divulgado em 15 de setembro.
Esse ganho aparece com força em estados do Centro-Oeste. Em 2023, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) disse que oito estados cresceram sobretudo com a agropecuária. Mato Grosso do Sul cresceu 13,4%, Mato Grosso 12,9% e Goiás 4,8%, contra 3,2% do país.
Nem todo exportador ganha. Em setembro, a receita da carne bovina caiu 27,6%, para US$ 1,38 bilhão, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Os embarques para a China caíram 93,2% em volume, e a entidade liga isso à “salvaguarda em vigor no país asiático”.
Quem paga: adubo, diesel e trigo
O custo começa no adubo. Cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), citado pela Agrolink. Em agosto, o preço médio de importação chegou a US$ 403,20 por tonelada, 12,8% acima de um ano antes, segundo o MDIC.
Como a compra é em dólar, cada alta da moeda encarece o produto em reais. Pela nossa conta, uma alta de 8,65% no dólar eleva em 8,65% o custo em reais da mesma tonelada, se o preço em dólar e o frete não mudarem.
O diesel entra na mesma conta. Entre 25% e 30% do consumo nacional vem de importação, segundo a Agência iNFRA, com base em fontes do governo e do mercado.
O trigo chega direto à mesa. Em agosto, a Conab projetou importação de 7,1 milhões de toneladas para a safra 2026/27, mais de 20% acima do ciclo anterior e o maior volume desde 2006/07. Na safra 2025/26, a produção caiu 27,1%, para 5,74 milhões de toneladas.
O argumento contrário
O argumento contra essa leitura é sólido. Um real mais fraco encarece insumos e produtos importados e pressiona a inflação. O Banco Central (BC) aponta que o câmbio chega mais aos preços de alimentação no domicílio e de bens industriais do que aos serviços.
O que diz o Banco Central: No boxe sobre repasse cambial do Relatório de Política Monetária de março de 2026, o BC diz que o repasse é maior em alimentação no domicílio e em bens industriais, e perto de zero em serviços. O próprio banco pede cautela, pela incerteza das estimativas.
Mas a renda do interior não vem só da exportação. Em 2023, 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do país foram gerados em municípios que não são capitais, segundo o IBGE. Uma reportagem sobre a divulgação aponta cidades médias, polos industriais e áreas do agronegócio como origem desse peso.
Se a comida sobe, o salário compra menos, e essa perda chega também ao comércio e à indústria das cidades. Por isso, o saldo do dólar alto depende de quem vende e de quem compra.
O que segue em aberto
O exportador de soja recebe mais reais por cada venda fechada em dólar. Já o produtor que compra adubo importado, e o consumidor que compra pão e comida, pagam mais.
O que segue em aberto é por quanto tempo o dólar fica nesse patamar e quanto disso chega aos preços. Os próximos dados de inflação e de balança comercial devem mostrar parte desse efeito.
Como fizemos: Usamos as variações do dólar comercial publicadas pela InfoMoney em 26/10/2026, acessadas no mesmo dia, até as 12h41. Não usamos a cotação de fechamento de 23/10 nem o fechamento de 26/10, porque as reportagens consultadas não trazem um valor de fechamento de 23/10 que confirme os demais. A conta de repasse de 8,65% é nossa e não considera frete nem mudança no preço em dólar. Os dados de exportação são do MDIC, citados pelo Mercado & Consumo e pela Abiec; os dados por estado são do IBGE de 2023 e não mostram o efeito do câmbio deste ano. A posição do BC vem do documento publicado, e o banco não foi consultado para esta reportagem.
Fontes
- Ibovespa desaba 13% após eleição, em dia de circuit breaker; dólar dispara 8% — InfoMoney (acesso em 26/10/2026)
- Conab eleva previsão da safra 2025/26 para 361,7 milhões de toneladas — Jornal do Comércio (acesso em 26/10/2026)
- Brasil projeta maior importação de trigo em quase duas décadas — CNN Brasil (Reuters) (acesso em 26/10/2026)
- Balança comercial tem superávit de US$ 7,74 bi em setembro com exportações em alta — Euquero Investir, com dados do MDIC (acesso em 26/10/2026)
- Sem China, exportações de carne bovina voltam a cair em setembro — Brasil Agro, com dados da Abiec (acesso em 26/10/2026)
- Fertilizantes mais caros elevam custos da safra — Agrolink (acesso em 26/10/2026)
- Diesel sobe mais que petróleo e reduz espaço para importações da Petrobras — Agência iNFRA (acesso em 26/10/2026)
- Agropecuária ajudou oito estados a crescerem mais que o Brasil em 2023 — JB, com dados do IBGE (acesso em 26/10/2026)
- PIB dos municípios 2023 — Economic News Brasil, com dados do IBGE (acesso em 26/10/2026)
- Relatório de Política Monetária, março de 2026, boxe sobre repasse cambial — Banco Central (acesso em 26/10/2026)



