ReportagemEconomia

Após o medo de 2002, Bolsa subiu 97% em 2003 com juros altos

Em 2002, o dólar chegou a quase R$ 4 antes da eleição. Em 2003, o Ibovespa subiu 97,3%, com juros altos e política fiscal ortodoxa.

Fachada do edifício da B3 em São Paulo, com três portões de ferro arqueados e a palavra BOVESPA em letras douradas acima das portas.
Fachada do edifício-sede da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, no centro da capital paulista, em foto de 2017.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 22 de outubro de 2002, cinco dias antes do segundo turno, o dólar estava cotado a R$ 3,9552, segundo o Banco Central (BC). O valor ficava perto dos R$ 4 que o mercado temia. Seis dias antes, em 16 de outubro, o Ibovespa, principal índice da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, tinha fechado em 8.370,80 pontos, o menor nível do ano.

O que veio depois foi mais favorável ao mercado do que o pânico sugeria. O registro, porém, não permite uma leitura simples. A recuperação veio com juros altos e regras fiscais rígidas, num momento de preços de produtos básicos em alta no exterior.

O medo de 2002 em números

Em 2002, o dólar subiu mais de 50%, de R$ 2,31 no fim de 2001 para R$ 3,53 no fim do ano, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). O risco-país, indicador que mede o prêmio extra que o país paga para se financiar no exterior, fechou o ano em 1.446 pontos, segundo o JP Morgan, como divulgado pelo Memorial da Democracia.

Lula venceu o segundo turno em 27 de outubro, com 61,27% dos votos válidos, segundo a Fundação Perseu Abramo. Em 22 de junho, antes da disputa final, ele havia divulgado a Carta ao Povo Brasileiro. Nela, escreveu que a transição teria como “premissa […] o respeito aos contratos e obrigações do país”. Também prometeu “preservar o superávit primário”, a economia que o governo faz antes de pagar juros da dívida.

O que veio depois

Dólar caiu e Bolsa subiu entre 2003 e 2006 Cotação do dólar em R$ (venda) no último dia útil do ano; variação anual, em %

Ano Dólar (R$) Variação do dólar Variação do Ibovespa
2003 2,8892 −18,2% +97,3%
2004 2,6544 −8,1% +17,8%
2005 2,3407 −11,8% +27,7%
2006 2,1380 −8,7% mais de 30%

Fonte: Banco Central (SGS, série 1); B3; Exame; InfoMoney; FGV. Elaboração: redação.

Em 2003, o risco-país, medido pelo banco americano JP Morgan, caiu de 1.446 para 468 pontos. Foi uma queda de 68%, segundo o Memorial da Democracia. Mesmo assim, o Ibovespa fechou em 9.994,80 pontos em 26 de fevereiro, seu menor nível do ano, segundo a B3.

A Selic, a taxa básica de juros da economia, chegou a 26,5% ao ano em 2003, segundo a InfoMoney. Em maio, o Copom manteve esse patamar, segundo a Agência Brasil. Antonio Palocci comandou a Fazenda de 2003 a 2006, e Henrique Meirelles, o Banco Central de 2003 a 2010, segundo a Folha de Pernambuco.

Entre o medo e o resultado

O registro não sustenta a ideia de que o medo era histeria. O real perdeu valor com força, e o risco-país estava em patamar alto. A melhora veio depois, com juros altos e a manutenção do superávit primário.

Um segundo fator pesou. Um estudo publicado na revista Economia e Sociedade, em 2024, diz que “a demanda da China desempenhou um papel importante no aumento do nível geral dos preços da maioria das commodities”. Commodities são produtos básicos vendidos no exterior, como soja e minério. Esse movimento melhorou os termos de troca do Brasil, ou seja, o que o país recebia pelo que vendia.

Os dados não separam o peso de cada fator. Não dá para dizer que só a política econômica explica a alta, nem que só os preços externos explicam tudo. Esta é uma leitura do registro, não uma previsão para 2026.

O que diz Lula: Na Carta ao Povo Brasileiro, de 22 de junho de 2002, ele escreveu que a transição teria como premissa “o respeito aos contratos e obrigações do país”. O texto integral foi reproduzido pelo Congresso em Foco.

O que isso significa

Em 2002, o mercado temeu o resultado da eleição, e o dólar subiu com força. Em 2003, a Bolsa e o câmbio melhoraram, com juros altos e compromissos fiscais. O caminho não foi em linha reta: o menor fechamento de 2003 veio em 26 de fevereiro, depois da posse.

Este texto analisa o passado e não prevê o que acontece em 2026. Não é recomendação de investimento. Ativos podem perder valor, e uma queda pode se aprofundar antes de se recuperar.

Como fizemos: Usamos a série diária de venda do dólar (código 1 do SGS) do Banco Central, consultada em 26/10/2026. Os valores são do último dia útil de cada ano: 31/12, exceto 2005 (30/12) e 2006 (29/12). Recordes e variações do Ibovespa vêm da B3, do Exame, da InfoMoney e da FGV. As variações do dólar são nossos cálculos; a de 2005 coincide com a publicada pela InfoMoney (−11,82%). Cotações e índices são nominais, sem correção pela inflação. O risco-país é do JP Morgan, como divulgado pelo Memorial da Democracia e pela InfoMoney; não consultamos a base do banco.

Fontes