Após o medo de 2002, Bolsa subiu 97% em 2003 com juros altos
Em 2002, o dólar chegou a quase R$ 4 antes da eleição. Em 2003, o Ibovespa subiu 97,3%, com juros altos e política fiscal ortodoxa.

Em 22 de outubro de 2002, cinco dias antes do segundo turno, o dólar estava cotado a R$ 3,9552, segundo o Banco Central (BC). O valor ficava perto dos R$ 4 que o mercado temia. Seis dias antes, em 16 de outubro, o Ibovespa, principal índice da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, tinha fechado em 8.370,80 pontos, o menor nível do ano.
O que veio depois foi mais favorável ao mercado do que o pânico sugeria. O registro, porém, não permite uma leitura simples. A recuperação veio com juros altos e regras fiscais rígidas, num momento de preços de produtos básicos em alta no exterior.
O medo de 2002 em números
Em 2002, o dólar subiu mais de 50%, de R$ 2,31 no fim de 2001 para R$ 3,53 no fim do ano, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). O risco-país, indicador que mede o prêmio extra que o país paga para se financiar no exterior, fechou o ano em 1.446 pontos, segundo o JP Morgan, como divulgado pelo Memorial da Democracia.
Lula venceu o segundo turno em 27 de outubro, com 61,27% dos votos válidos, segundo a Fundação Perseu Abramo. Em 22 de junho, antes da disputa final, ele havia divulgado a Carta ao Povo Brasileiro. Nela, escreveu que a transição teria como “premissa […] o respeito aos contratos e obrigações do país”. Também prometeu “preservar o superávit primário”, a economia que o governo faz antes de pagar juros da dívida.
O que veio depois
Dólar caiu e Bolsa subiu entre 2003 e 2006 Cotação do dólar em R$ (venda) no último dia útil do ano; variação anual, em %
| Ano | Dólar (R$) | Variação do dólar | Variação do Ibovespa |
|---|---|---|---|
| 2003 | 2,8892 | −18,2% | +97,3% |
| 2004 | 2,6544 | −8,1% | +17,8% |
| 2005 | 2,3407 | −11,8% | +27,7% |
| 2006 | 2,1380 | −8,7% | mais de 30% |
Fonte: Banco Central (SGS, série 1); B3; Exame; InfoMoney; FGV. Elaboração: redação.
Em 2003, o risco-país, medido pelo banco americano JP Morgan, caiu de 1.446 para 468 pontos. Foi uma queda de 68%, segundo o Memorial da Democracia. Mesmo assim, o Ibovespa fechou em 9.994,80 pontos em 26 de fevereiro, seu menor nível do ano, segundo a B3.
A Selic, a taxa básica de juros da economia, chegou a 26,5% ao ano em 2003, segundo a InfoMoney. Em maio, o Copom manteve esse patamar, segundo a Agência Brasil. Antonio Palocci comandou a Fazenda de 2003 a 2006, e Henrique Meirelles, o Banco Central de 2003 a 2010, segundo a Folha de Pernambuco.
Entre o medo e o resultado
O registro não sustenta a ideia de que o medo era histeria. O real perdeu valor com força, e o risco-país estava em patamar alto. A melhora veio depois, com juros altos e a manutenção do superávit primário.
Um segundo fator pesou. Um estudo publicado na revista Economia e Sociedade, em 2024, diz que “a demanda da China desempenhou um papel importante no aumento do nível geral dos preços da maioria das commodities”. Commodities são produtos básicos vendidos no exterior, como soja e minério. Esse movimento melhorou os termos de troca do Brasil, ou seja, o que o país recebia pelo que vendia.
Os dados não separam o peso de cada fator. Não dá para dizer que só a política econômica explica a alta, nem que só os preços externos explicam tudo. Esta é uma leitura do registro, não uma previsão para 2026.
O que diz Lula: Na Carta ao Povo Brasileiro, de 22 de junho de 2002, ele escreveu que a transição teria como premissa “o respeito aos contratos e obrigações do país”. O texto integral foi reproduzido pelo Congresso em Foco.
O que isso significa
Em 2002, o mercado temeu o resultado da eleição, e o dólar subiu com força. Em 2003, a Bolsa e o câmbio melhoraram, com juros altos e compromissos fiscais. O caminho não foi em linha reta: o menor fechamento de 2003 veio em 26 de fevereiro, depois da posse.
Este texto analisa o passado e não prevê o que acontece em 2026. Não é recomendação de investimento. Ativos podem perder valor, e uma queda pode se aprofundar antes de se recuperar.
Como fizemos: Usamos a série diária de venda do dólar (código 1 do SGS) do Banco Central, consultada em 26/10/2026. Os valores são do último dia útil de cada ano: 31/12, exceto 2005 (30/12) e 2006 (29/12). Recordes e variações do Ibovespa vêm da B3, do Exame, da InfoMoney e da FGV. As variações do dólar são nossos cálculos; a de 2005 coincide com a publicada pela InfoMoney (−11,82%). Cotações e índices são nominais, sem correção pela inflação. O risco-país é do JP Morgan, como divulgado pelo Memorial da Democracia e pela InfoMoney; não consultamos a base do banco.
Fontes
- Banco Central do Brasil: taxa de câmbio, dólar americano (venda), diário (acesso em 26/10/2026)
- B3: Recordes anuais do Ibovespa (acesso em 26/10/2026)
- Bovespa encerra 2003 com alta de 97,3%: Exame
- Bolsa fecha 2005 como alternativa mais rentável de investimento: InfoMoney
- Mercado financeiro e eleições: Blog do IBRE (FGV)
- Risco-país fecha em queda em 2003: Memorial da Democracia
- Um ano de governo Lula: com mercado confiante, risco país teve forte queda em 2003: InfoMoney
- Copom eleva taxa Selic para 26,5% ao ano, tentando conter inflação: InfoMoney
- Copom mantém taxa básica de juros em 26,5% ao ano: Agência Brasil
- Lula quer fazer nova carta aos brasileiros; veja a íntegra da primeira: Congresso em Foco
- PT discute quem seria Posto Ipiranga de Lula para 2022: Folha de Pernambuco
- Novo boom das commodities e a crescente participação chinesa na estrutura de comércio exterior do Brasil: Economia e Sociedade
- Em outubro de 2002, o primeiro trabalhador da história era eleito presidente do Brasil: Fundação Perseu Abramo



