Relatório da Defesa de 2022 não achou fraude, mas apontou riscos
Militares entregaram ao TSE, em 9 de novembro de 2022, relatório sem fraude comprovada, mas que não descartou código malicioso nas urnas.

O Ministério da Defesa enviou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na quarta-feira (9) de novembro de 2022, o relatório de técnicos militares sobre o sistema eletrônico de votação. O documento não apontou fraude. Mas disse que não é possível afirmar que as urnas estejam livres de um eventual código malicioso, ou seja, um programa escondido capaz de alterar seu funcionamento.
O TSE criou em setembro de 2021 a Comissão de Transparência das Eleições (CTE), para ampliar a fiscalização do processo eleitoral. Os militares foram convidados a integrar o grupo, segundo a Folha de Pernambuco. Em junho de 2022, o então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, escreveu que as Forças Armadas “não se sentem devidamente prestigiadas” por atender ao convite.
O que o relatório encontrou
Segundo o Poder360, a equipe não encontrou inconformidade ao comparar os boletins de urna com os resultados divulgados pelo TSE. O boletim de urna é o documento impresso por cada urna, com a contagem de votos da seção.
O ponto de maior alerta é a compilação. Compilar é transformar o código-fonte, o texto do programa escrito por pessoas, em código binário, que a máquina executa. Segundo a Agência Brasil, o ministro escreveu que o acesso à rede nessa etapa “pode configurar relevante risco à segurança do processo”.
Os militares também tiveram limites. Segundo a Jovem Pan, “foram autorizadas somente análises estatísticas, ou seja, foi impossibilitada a execução dos códigos-fonte”. Por isso, a pasta pediu ao TSE uma “investigação técnica” sobre a compilação.
Nota, PGR e auditorias
No dia seguinte, 10 de novembro, o ministério divulgou nota sobre o relatório. O TSE respondeu no mesmo dia. Em nota, o tribunal disse ter recebido “com satisfação” o documento e afirmou que ele “não apontou a existência de nenhuma fraude ou inconsistência nas urnas eletrônicas e no processo eleitoral de 2022”. As sugestões seriam analisadas no momento oportuno.
Em 14 de novembro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmou que as observações eram “apenas possíveis pontos de aperfeiçoamento futuro para as urnas eletrônicas”. Segundo a CartaCapital, senadores aliados de Jair Bolsonaro tinham pedido investigação com base no relatório.
Em dezembro de 2023, o Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu sua auditoria sobre as eleições de 2022. Foram conferidos 4.577 boletins de urna, sorteados ao acaso. O resultado foi “a confirmação sem divergências” entre os dados das urnas e os resultados oficiais, segundo O Imparcial.
A fala de Mauro Cid
Em 2025, a delação do ex-ajudante de ordens Mauro Cid trouxe o tema de volta ao debate. Em depoimento gravado em 21 de novembro de 2024, Cid disse que Bolsonaro “queria que escrevesse que tivesse fraude”, segundo o Poder360. Ele afirmou que o texto final foi “um meio termo” entre o que o ex-presidente queria e o trabalho técnico do general.
Trata-se de relato em delação, não de conclusão técnica. As reportagens consultadas não trazem resposta da defesa de Bolsonaro. Também não ligam a fala a denúncia ou decisão judicial sobre o relatório.
O que diz o Ministério da Defesa: Em nota de 10 de novembro de 2022, a pasta afirmou que o relatório “não tenha constatado indícios de fraude nas eleições deste ano, também não descarta a possibilidade”. A nota foi publicada pelo O Povo; não localizamos o texto no site oficial do ministério.
O que isso significa
O relatório não apontou fraude. Também não afastou a possibilidade de código malicioso e pediu uma investigação técnica sobre a compilação. As duas coisas estão no mesmo documento, e uma leitura honesta precisa citar as duas.
A PGR não viu indícios para investigar o sistema, e o TCU não encontrou divergências em 2022. Não encontramos, nas fontes consultadas, detalhamento público da resposta técnica do TSE às sugestões.
Como fizemos: Usamos reportagens de 9 e 10 de novembro de 2022 que citam o texto do relatório, a nota do TSE, a posição da PGR de 14/11/2022, a auditoria do TCU de dezembro de 2023 e a reportagem sobre a delação de Mauro Cid de 20/02/2025. O relatório integral não foi localizado, então as citações vêm das reportagens. Acessos em 26/10/2026. Não há cálculos próprios.
Fontes
- Defesa não vê fraude em eleição, mas sugere melhorias ao TSE — Poder360
- Relatório do Ministério da Defesa não aponta fraude nas urnas — Gazeta do Povo
- Relatório de militares não aponta fraude nas eleições; TSE afirma que recebeu documento com “satisfação” — CNN Brasil
- Defesa não acha fraude em urna, mas sugere comissão para averiguar “código malicioso” — O Povo (9/11/2022)
- Ministério da Defesa diz que relatório não descarta possibilidade de fraude nas urnas — O Povo (10/11/2022)
- Relatório da Defesa sobre urnas não aponta fraude nas eleições — Jovem Pan
- Ministério da Defesa entrega relatório sobre urnas eletrônicas ao TSE — Agência Brasil, republicado pelo Tribuna do Planalto (10/11/2022)
- Defesa diz que Forças Armadas não se sentem prestigiadas pelo TSE — Folha de Pernambuco
- PGR não identifica fato concreto em relatório da Defesa e rejeita investigação de urnas — CartaCapital (14/11/2022)
- Auditoria do TCU reafirma segurança do sistema eleitoral — O Imparcial (26/12/2023)
- Bolsonaro queria que relatório das urnas apontasse fraude, diz Cid — Poder360 (20/02/2025)



