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Bolsa não é juiz da eleição: preço mede lucro, voto escolhe governo

Tratar a B3 como placar da legitimidade confunde preço com voto, e os dados de 2002, 2014, 2018 e 2022 mostram o motivo.

Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Operadores sentados de costas diante do painel de cotações do pregão da Bolsa de Valores de São Paulo
Operadores diante do painel de cotações no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em foto de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 31 de outubro de 2022, primeiro pregão depois da vitória de Lula, o Ibovespa subiu 1,31%, aos 116.037 pontos. O dólar caiu 2,54%, para R$ 5,166. Em outubro de 2018, mês da eleição de Jair Bolsonaro, a bolsa subiu 10,19%. Esses movimentos costumam ser lidos como veredito político. Essa leitura é um erro de categoria.

Nesta segunda-feira (26), a bolsa e o dólar reagem ao resultado. Este texto não usa cotações do dia, porque o pregão ainda estava em curso na hora da publicação. Lula foi reeleito no domingo (25) com 51,79% dos votos válidos, segundo a apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Flávio Bolsonaro (PL) não reconhece o resultado.

Preço é aposta, voto é decisão

A B3, a bolsa de valores do país, negocia ações de empresas. O preço de uma ação incorpora o lucro que os investidores esperam no futuro, com o risco que enxergam. O Ibovespa, principal índice da B3, mede o movimento de quem aposta com dinheiro.

O voto segue outra lógica. Cada eleitor vale um voto, sem importar quanto tem na conta. A contagem é feita pela Justiça Eleitoral, e quem vence ganha o direito de governar pelo prazo previsto na Constituição. São perguntas diferentes. Uma pergunta é quanto vale o futuro de uma empresa. A outra é quem decide o país.

O histórico confirma a diferença. Em 27 de outubro de 2014, o dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff, o Ibovespa caiu 2,77%, para 50.503 pontos. O dólar subiu 2,68%, segundo a Reuters. Um analista do Citi afirmou que o mercado costuma incorporar ao preço o risco eleitoral bem antes da votação. Ou seja, a queda já estava nas pesquisas, não na urna. O segundo mandato de Dilma foi marcado pela recessão: o Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz, caiu 3,6% em 2016, na primeira divulgação do IBGE.

Em 2002, o dólar chegou a R$ 3,99, em valor nominal, em 10 de outubro. Era o auge do temor com a chegada de Lula ao Planalto, segundo o Estadão Conteúdo. No primeiro mandato de Lula, de outubro de 2002 a setembro de 2006, o Ibovespa subiu 323%.

O cálculo inclui dividendos, a parte do lucro paga aos acionistas, e vem de estudo da consultoria TC Economatica citado pelo InfoMoney. O mercado temeu o candidato e depois a bolsa subiu forte durante o governo.

Em 2018, a alta de outubro foi forte, mas o quadro não é simples. No primeiro pregão após a eleição, em 29 de outubro, investidores estrangeiros tiraram R$ 1,006 bilhão da B3, segundo o Estadão Conteúdo. A mesma bolsa que subiu no mês também viu essa saída no dia seguinte à votação.

O padrão não sustenta um placar. A bolsa caiu com a reeleição de Dilma, subiu com a eleição de Bolsonaro e subiu 5,66% em outubro de 2022, segundo a Agência Brasil. Esses movimentos mostram que o preço reage a expectativas de política econômica, câmbio e juros. Eles não mostram quem a maioria quis eleger.

O que o mercado cobra, e o que não mede

O argumento contrário precisa ser ouvido. Quem defende a leitura de mercado diz que a bolsa não é torcida: ela precifica o risco fiscal, a chance de o governo gastar mais do que arrecada. Esse risco é real. Sem um plano crível para as contas, investidores exigem prêmio maior para emprestar ao país, e o dólar tende a subir.

O custo também chega ao bolso. Um dólar mais alto encarece importados e insumos. Uma estimativa do economista João Fernandes, da Quantitas, publicada pelo InfoMoney em dezembro de 2024, aponta repasse de cerca de 14% nos alimentos e 8% nos bens industriais. Nos serviços, o repasse seria de cerca de 2%. Repasse é a parte da alta do dólar que chega ao preço final.

A resposta está no lugar certo. Os efeitos do câmbio se enfrentam com orçamento, regra fiscal e política de juros, decididos pelo Congresso e pelo Banco Central e cobrados em público. Uma queda de ação não diz qual imposto subir nem qual gasto cortar. Ela mostra quanto dinheiro está disposto a apostar contra um cenário. Tomar essa aposta como juiz da legitimidade é o erro.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele não reconhece o resultado e, segundo a Jovem Pan, a equipe dele pedirá a anulação das eleições. Em declaração publicada na noite de domingo (25), afirmou: “É impossível reconhecer o resultado das eleições”.

Este é um texto de opinião da redação. O mercado pode e deve cobrar clareza fiscal, e o governo reeleito tem esse dever. Mas a legitimidade de um governo vem do voto contado pela Justiça Eleitoral e do respeito ao resultado. Nenhuma cotação substitui essas regras. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Por isso, a bolsa não serve de termômetro para quem tem direito de governar. Este texto não é recomendação de investimento.

Como fizemos: Usamos fechamentos e variações do Ibovespa e do dólar publicados pela Agência Brasil e pela Reuters (31/10/2022), pelo Estadão Conteúdo (31/10/2018 e 2002) e pela Reuters (27/10/2014), além de estudo citado pelo InfoMoney, acessados em 26/10/2026. O resultado de 2026 vem da apuração do TSE, na cobertura do ABC+. Não usamos cotações do pregão de 26/10/2026, que ainda estava em curso na publicação. Os dados de 2014 são preliminares, os de 2002 são nominais, e não consultamos séries oficiais da B3 ou do Banco Central.

Fontes