Bolsa não é juiz da eleição: preço mede lucro, voto escolhe governo
Tratar a B3 como placar da legitimidade confunde preço com voto, e os dados de 2002, 2014, 2018 e 2022 mostram o motivo.
Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Em 31 de outubro de 2022, primeiro pregão depois da vitória de Lula, o Ibovespa subiu 1,31%, aos 116.037 pontos. O dólar caiu 2,54%, para R$ 5,166. Em outubro de 2018, mês da eleição de Jair Bolsonaro, a bolsa subiu 10,19%. Esses movimentos costumam ser lidos como veredito político. Essa leitura é um erro de categoria.
Nesta segunda-feira (26), a bolsa e o dólar reagem ao resultado. Este texto não usa cotações do dia, porque o pregão ainda estava em curso na hora da publicação. Lula foi reeleito no domingo (25) com 51,79% dos votos válidos, segundo a apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Flávio Bolsonaro (PL) não reconhece o resultado.
Preço é aposta, voto é decisão
A B3, a bolsa de valores do país, negocia ações de empresas. O preço de uma ação incorpora o lucro que os investidores esperam no futuro, com o risco que enxergam. O Ibovespa, principal índice da B3, mede o movimento de quem aposta com dinheiro.
O voto segue outra lógica. Cada eleitor vale um voto, sem importar quanto tem na conta. A contagem é feita pela Justiça Eleitoral, e quem vence ganha o direito de governar pelo prazo previsto na Constituição. São perguntas diferentes. Uma pergunta é quanto vale o futuro de uma empresa. A outra é quem decide o país.
O histórico confirma a diferença. Em 27 de outubro de 2014, o dia seguinte à reeleição de Dilma Rousseff, o Ibovespa caiu 2,77%, para 50.503 pontos. O dólar subiu 2,68%, segundo a Reuters. Um analista do Citi afirmou que o mercado costuma incorporar ao preço o risco eleitoral bem antes da votação. Ou seja, a queda já estava nas pesquisas, não na urna. O segundo mandato de Dilma foi marcado pela recessão: o Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz, caiu 3,6% em 2016, na primeira divulgação do IBGE.
Em 2002, o dólar chegou a R$ 3,99, em valor nominal, em 10 de outubro. Era o auge do temor com a chegada de Lula ao Planalto, segundo o Estadão Conteúdo. No primeiro mandato de Lula, de outubro de 2002 a setembro de 2006, o Ibovespa subiu 323%.
O cálculo inclui dividendos, a parte do lucro paga aos acionistas, e vem de estudo da consultoria TC Economatica citado pelo InfoMoney. O mercado temeu o candidato e depois a bolsa subiu forte durante o governo.
Em 2018, a alta de outubro foi forte, mas o quadro não é simples. No primeiro pregão após a eleição, em 29 de outubro, investidores estrangeiros tiraram R$ 1,006 bilhão da B3, segundo o Estadão Conteúdo. A mesma bolsa que subiu no mês também viu essa saída no dia seguinte à votação.
O padrão não sustenta um placar. A bolsa caiu com a reeleição de Dilma, subiu com a eleição de Bolsonaro e subiu 5,66% em outubro de 2022, segundo a Agência Brasil. Esses movimentos mostram que o preço reage a expectativas de política econômica, câmbio e juros. Eles não mostram quem a maioria quis eleger.
O que o mercado cobra, e o que não mede
O argumento contrário precisa ser ouvido. Quem defende a leitura de mercado diz que a bolsa não é torcida: ela precifica o risco fiscal, a chance de o governo gastar mais do que arrecada. Esse risco é real. Sem um plano crível para as contas, investidores exigem prêmio maior para emprestar ao país, e o dólar tende a subir.
O custo também chega ao bolso. Um dólar mais alto encarece importados e insumos. Uma estimativa do economista João Fernandes, da Quantitas, publicada pelo InfoMoney em dezembro de 2024, aponta repasse de cerca de 14% nos alimentos e 8% nos bens industriais. Nos serviços, o repasse seria de cerca de 2%. Repasse é a parte da alta do dólar que chega ao preço final.
A resposta está no lugar certo. Os efeitos do câmbio se enfrentam com orçamento, regra fiscal e política de juros, decididos pelo Congresso e pelo Banco Central e cobrados em público. Uma queda de ação não diz qual imposto subir nem qual gasto cortar. Ela mostra quanto dinheiro está disposto a apostar contra um cenário. Tomar essa aposta como juiz da legitimidade é o erro.
O que diz Flávio Bolsonaro: Ele não reconhece o resultado e, segundo a Jovem Pan, a equipe dele pedirá a anulação das eleições. Em declaração publicada na noite de domingo (25), afirmou: “É impossível reconhecer o resultado das eleições”.
Este é um texto de opinião da redação. O mercado pode e deve cobrar clareza fiscal, e o governo reeleito tem esse dever. Mas a legitimidade de um governo vem do voto contado pela Justiça Eleitoral e do respeito ao resultado. Nenhuma cotação substitui essas regras. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Por isso, a bolsa não serve de termômetro para quem tem direito de governar. Este texto não é recomendação de investimento.
Como fizemos: Usamos fechamentos e variações do Ibovespa e do dólar publicados pela Agência Brasil e pela Reuters (31/10/2022), pelo Estadão Conteúdo (31/10/2018 e 2002) e pela Reuters (27/10/2014), além de estudo citado pelo InfoMoney, acessados em 26/10/2026. O resultado de 2026 vem da apuração do TSE, na cobertura do ABC+. Não usamos cotações do pregão de 26/10/2026, que ainda estava em curso na publicação. Os dados de 2014 são preliminares, os de 2002 são nominais, e não consultamos séries oficiais da B3 ou do Banco Central.
Fontes
- Como ficou o resultado final do 2º turno da eleição presidencial de 2026 — ABC+
- “É impossível reconhecer o resultado das eleições”, diz Flávio após derrota para Lula — Jovem Pan
- Bovespa cai e dólar sobe após reeleição de Dilma Rousseff — Gazeta do Povo (Reuters)
- Agora é oficial: PIB cai 3,6% e país tem a pior recessão de todos os tempos — Congresso em Foco (IBGE)
- Dólar ainda está longe do pico de 2002 — Gazeta do Povo (Estadão Conteúdo)
- Quais ações mais subiram e quais mais caíram nos governos anteriores de Lula? — InfoMoney
- Ibovespa sobe 0,62% e termina outubro com ganho de 10,19% — Istoé (Estadão Conteúdo)
- Dólar fecha em queda no primeiro pregão após eleição de Lula — Economic News Brasil (Agência Brasil/Reuters)
- Repasse do dólar aos preços está maior que o normal e eleva preocupação com inflação — InfoMoney
- Sao Paulo Stock Exchange — Wikimedia Commons (foto e licença)



