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Opinião: Brasil Soberano precisa proteger empregos, não só crédito

Programa de R$ 22,6 bilhões responde ao tarifaço, mas não exige manutenção de vagas; Congresso deve cobrar contrapartidas e transparência.

Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Aloizio Mercadante, Lula e Geraldo Alckmin na posse da direção do BNDES
Mercadante, Lula e Alckmin na posse do presidente do BNDES, em fevereiro de 2023.Foto: Palácio do Planalto / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A comissão mista do Congresso aprovou nesta quinta-feira (5) R$ 22,6 bilhões em crédito para o Plano Brasil Soberano. A resposta pública às tarifas unilaterais dos Estados Unidos é necessária. Mas o programa tem uma lacuna que não pode ser ignorada: suas regras atuais não exigem manutenção de empregos.

A informação consta das perguntas e respostas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O próprio banco afirma que o programa não prevê esse compromisso. Um plano defendido como instrumento de soberania deveria colocar o trabalho brasileiro no centro de suas contrapartidas.

O programa financia empresas sem exigir preservação de vagas Regras do BNDES Brasil Soberano Competitividade consultadas nesta sexta

Aspecto Regra informada pelo BNDES
Recursos totais R$ 22,6 bilhões
Manutenção de empregos Não é exigida
Apoio indireto Aberto a empresas de todos os portes elegíveis
Apoio direto Restrito a grandes empresas habilitadas
Dividendos em operações diretas Há restrições para os grupos 1 e 3

Fonte: BNDES. Elaboração: redação.

Defender a produção exige defender quem trabalha

O crédito subsidiado tem justificativa clara. Uma tarifa imposta por outro país pode derrubar vendas, reduzir o caixa e interromper investimentos. Financiar capital de giro e máquinas ajuda empresas brasileiras a atravessar o choque sem depender apenas de credores privados.

Essa defesa não deve ser confundida com transferência incondicional de recursos públicos. Os financiamentos serão devolvidos, mas recebem R$ 13,5 bilhões do Tesouro e condições diferenciadas. Por isso, o interesse público precisa aparecer em obrigações verificáveis, não apenas na exposição de motivos.

Preservar emprego é a mais direta delas. Uma empresa pode manter exportações e, ainda assim, reduzir sua equipe para recuperar margem. Sem uma cláusula específica, o contrato de crédito não impede que o trabalhador pague sozinho o custo do ajuste.

A exigência pode ser proporcional ao porte e ao setor. Pequenas empresas poderiam declarar o número de vagas e informar mudanças periodicamente. Grandes operações deveriam assumir metas de manutenção do quadro durante o financiamento, com regras para enquadramentos excepcionais.

O argumento contrário também merece consideração. Companhias sob pressão podem precisar reorganizar atividades, e uma obrigação rígida pode dificultar a adesão. A resposta não deve ser abandonar a contrapartida, mas desenhá-la com prazos, negociação e transparência.

Transparência e desenvolvimento completam a soberania

O BNDES já impõe restrições a dividendos e outros atos societários em operações diretas dos grupos ligados aos choques externos. A medida protege o objetivo do crédito. O próprio banco, porém, informa que operações indiretas não estão sujeitas às mesmas restrições.

Essa diferença precisa de justificativa pública. O apoio indireto atende empresas de todos os portes e usa instituições financeiras como intermediárias. A intermediação não deveria apagar a obrigação de prestar contas sobre emprego, produção e destino dos recursos.

A sociedade precisa acompanhar cada operação em dados abertos. Nome da empresa, valor, taxa, estado, setor e número de postos de trabalho formam o mínimo. A publicação deve alcançar também fornecedores e pequenos negócios, não somente as maiores contratações.

A composição do plano reforça sua importância industrial. Há R$ 4 bilhões para fertilizantes e R$ 2 bilhões para minerais críticos e estratégicos. Esses recursos devem apoiar transformação no Brasil, tecnologia nacional e cadeias produtivas que gerem trabalho qualificado.

Soberania não é somente continuar vendendo produtos ao exterior. É ampliar a capacidade de decidir o que produzir, com que tecnologia e sob quais condições de trabalho. Um programa que financia máquinas sem acompanhar as vagas mede apenas uma parte desse projeto.

A urgência do ajuste também é concreta. O BNDES suspendeu desde 29 de outubro novos protocolos de algumas modalidades, diante da elevada demanda e da vigência da MP. A decisão reforça a necessidade de resolver a tramitação sem transformar pressa em cheque em branco.

O Congresso ainda tem espaço para aperfeiçoar a medida provisória antes de 18 de novembro. Pode exigir relatórios públicos, contrapartidas trabalhistas proporcionais e avaliação dos resultados. Aprovar o socorro rapidamente não impede aprimorar suas regras.

O que diz o BNDES: Nas perguntas e respostas do programa, o banco informa que não há compromisso de manutenção de empregos. Também detalha as restrições societárias das operações diretas e esclarece que elas não alcançam as operações indiretas.

O Brasil deve resistir ao tarifaço com política de Estado, não com improviso. O crédito é um instrumento legítimo e urgente. Sua legitimidade será maior se cada real subsidiado proteger a produção e, ao mesmo tempo, o direito de quem trabalha nela.

Como fizemos: Comparamos a aprovação da MP 1.379/2026 com as regras publicadas pelo BNDES até esta sexta-feira. A análise separa os objetivos declarados pelo governo das obrigações contratuais existentes. As propostas de contrapartida são posição editorial, não medidas já anunciadas.

Fontes