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Opinião: minerais críticos devem financiar indústria brasileira

Incentivos precisam exigir tecnologia, fornecedores e empregos no país; riqueza mineral sem transformação nacional repete dependência histórica.

Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Raul Jungmann, Renan Calheiros e outros participantes em audiência sobre minerais críticos no Senado
Audiência sobre minerais críticos no Senado, em julho de 2025, com governo e setor de mineração.Foto: Geraldo Magela / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

O governo federal definiu nesta quinta-feira (5) 27 minerais críticos e estratégicos que orientarão políticas públicas e incentivos. Nove estão na faixa de prioridade alta, entre eles terras raras, grafita, lítio, níquel e cobre. A decisão pode ajudar o Brasil a construir uma política industrial soberana.

Essa oportunidade não estará garantida pela lista. Ela dependerá das condições impostas a cada projeto. O Meridiano defende que recursos públicos apoiem processamento, tecnologia, fornecedores e empregos qualificados no país. Exportar mais matéria-prima, sem transformar a riqueza aqui, repetiria uma dependência histórica.

Os instrumentos previstos têm prazos e condições diferentes Principais mecanismos da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos

Instrumento Valor máximo previsto Condição ou período
Fundo Garantidor da Atividade Mineral R$ 2 bilhões da União Ato da Fazenda e disponibilidade orçamentária
Créditos fiscais do programa federal R$ 1 bilhão por ano De 2030 a 2034, por seleção competitiva
Pesquisa e inovação pelas empresas Ao menos 0,3% da receita líquida de tributos Primeiros seis anos após regulamentação

Fonte: Lei 15.506/2026 e Ministério da Fazenda. Elaboração: redação.

Incentivo público precisa de contrapartida nacional

Os valores citados como pacote de até R$ 7 bilhões não formam um caixa único. O total combina até R$ 2 bilhões em participação possível da União no fundo garantidor e R$ 5 bilhões em créditos fiscais distribuídos entre 2030 e 2034.

A diferença é essencial para avaliar a política. Garantias ajudam projetos a obter crédito. Créditos fiscais reduzem tributos futuros de empresas selecionadas. Nenhum desses instrumentos deve ser apresentado como investimento direto já realizado em fábricas brasileiras.

O desenho da lei oferece critérios úteis. Os projetos prioritários devem ampliar valor agregado e inovação no Brasil. Também devem estimular contratação de trabalhadores, serviços e fornecedores locais. Essas exigências precisam aparecer em contratos, indicadores públicos e prestação de contas.

O Meridiano não defende isolamento tecnológico. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na reunião que o país precisa construir parcerias com outras nações. A posição é razoável quando a cooperação transfere conhecimento e fortalece a capacidade produtiva brasileira.

O problema começa quando a parceria limita o Brasil a fornecer minério enquanto outro país concentra pesquisa, beneficiamento e manufatura. Nesse arranjo, a dependência apenas muda de aparência. A soberania exige dominar etapas crescentes da cadeia, não apenas possuir a reserva no subsolo.

Desenvolvimento deve alcançar trabalhadores e regiões

A lista prioriza minerais usados em baterias, armazenamento de energia, veículos elétricos, semicondutores e equipamentos de defesa. Essas aplicações mostram que a política mineral também é política tecnológica. O debate não pode ficar restrito ao preço internacional das commodities.

As regiões produtoras precisam receber mais do que promessas de exportação. Instalações de pesquisa e transformação podem criar empregos de maior qualificação e fortalecer fornecedores locais. Esse resultado exige formação profissional, infraestrutura e participação das universidades públicas brasileiras.

A exigência de investimento empresarial em pesquisa é outro ponto a fiscalizar. A lei prevê ao menos 0,3% da receita operacional bruta, descontados tributos, durante os primeiros seis anos. Depois, o mínimo sobe para 0,5%. O destino efetivo desses recursos deve ser público e verificável.

Os resultados devem ser avaliados ao longo de toda a cadeia. Não basta contar anúncios de investimento ou toneladas beneficiadas. O governo precisa mostrar empregos criados, salários, compras locais, patentes e produtos finais fabricados no Brasil. Essa transparência permitirá corrigir projetos que concentrem benefícios e distribuam custos às comunidades.

Soberania também exige responsabilidade social e ambiental. Prioridade econômica não deve significar autorização automática para qualquer projeto. Comunidades afetadas e trabalhadores precisam participar das decisões, com regras rigorosas e fiscalização independente.

O que diz o MDIC: O ministro Márcio Elias Rosa afirmou que o governo quer romper o ciclo de exportar riqueza bruta e importar o produto pronto. Ele apresentou a lista como estratégia para desenvolver a industrialização no Brasil.

O conselho agora precisa transformar prioridade em critérios mensuráveis. Quanto cada projeto investirá no país? Quantos fornecedores nacionais participarão? Que tecnologia será desenvolvida e quem deterá seu controle? Sem essas respostas, a política corre o risco de repetir a exportação de valor e a importação de produtos prontos.

O Brasil tem recursos minerais, instituições de pesquisa e uma base industrial capaz de avançar. Usar incentivos para unir esses ativos é um projeto patriótico de desenvolvimento. A medida do sucesso será a riqueza, a tecnologia e os direitos construídos aqui, não o volume bruto enviado ao exterior.

Como fizemos: Este editorial compara a lista aprovada nesta quinta com os instrumentos da Lei 15.506/2026. Somamos até R$ 5 bilhões em créditos entre 2030 e 2034 e R$ 2 bilhões do fundo garantidor. Não tratamos esses limites legais como recursos já gastos ou contratos firmados.

Fontes