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Dois indígenas entram pela primeira vez na diplomacia brasileira

Turma do Instituto Rio Branco terá 27 integrantes de grupos subrepresentados entre cerca de 60 alunos e recorde de 45% de mulheres.

Fachada iluminada do Palácio Itamaraty refletida no espelho d'água à noite
Palácio Itamaraty, em Brasília, sede da cerimônia de posse da turma 2026–2028 de diplomatas.Foto: Dlaurini / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, tomaram posse na quarta-feira (4) no Palácio Itamaraty, em Brasília. Eles são os primeiros indígenas admitidos no Curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco, escola do Ministério das Relações Exteriores.

A turma 2026–2028 também inclui uma quilombola, 17 pessoas negras e sete pessoas com deficiência. Ao todo, 27 alunos vêm de grupos subrepresentados, segundo o Itamaraty. A turma terá cerca de 60 integrantes e a maior participação proporcional de mulheres da história: 45%.

Grupos subrepresentados somam 27 ingressos na nova turma Composição divulgada pelo Itamaraty para o curso 2026–2028

Grupo Ingressos ou participação
Pessoas negras 17
Pessoas com deficiência 7
Indígenas 2
Quilombolas 1
Mulheres na turma 45%
Total de alunos Cerca de 60

Fonte: Ministério das Relações Exteriores e Agência Brasil. As categorias não devem ser somadas ao total de mulheres. Elaboração: redação.

Formação antecede o trabalho nas representações

Os novos diplomatas farão o curso de formação entre 2026 e 2028. Portanto, a posse marca o ingresso na carreira e o início da preparação no Instituto Rio Branco. Não significa que eles já assumiram embaixadas ou outros postos no exterior.

O Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) incluiu ações afirmativas. O Itamaraty relaciona essas medidas ao Estatuto da Igualdade Racial e a reivindicações de movimentos de direitos humanos. O ministério também ampliou o Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia.

O programa passou a apoiar pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência. A composição da turma mostra uma mudança no acesso à formação diplomática. O efeito sobre a atuação internacional dependerá das carreiras e das funções que os alunos ocuparão depois.

Trajetórias acadêmicas chegam ao Itamaraty

Marcelo Kariri é natural de Campina Grande (PB) e formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande. Ele também tem MBA pela USP/Esalq e trabalhou como engenheiro de suporte a produtos entre 2021 e 2025.

Na cerimônia, Marcelo relatou que sua mãe via a educação como uma porta para a vida. Ele também é autor de livro infanto-juvenil. Sua fala registrou as barreiras enfrentadas pela família em relação ao estudo e ao trabalho qualificado.

Idjahure Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e mestre pelo Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Também é bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Diversidade passa a integrar a representação do país

A ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, afirmou que o corpo diplomático deve refletir a diversidade brasileira. Segundo ela, os novos grupos devem participar da definição da posição do Brasil no mundo.

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, classificou a posse como um ganho para a nação e para o Estado. O escritor Ailton Krenak, convidado de honra, destacou a presença de famílias e crianças indígenas na solenidade.

O que diz o Itamaraty: Maria Laura da Rocha afirmou que a entrada de indígenas e quilombolas reafirma o papel desses grupos na política externa. A ministra apresentou a diversidade como parte da defesa dos direitos constitucionais.

A nova turma encerra uma ausência histórica no curso de formação, mas não resolve sozinha a representação em toda a carreira. O próximo teste será acompanhar a permanência, a progressão e a distribuição de responsabilidades dentro do serviço diplomático.

Como fizemos: Conferimos a composição da turma na Agência Brasil e na nota do Ministério das Relações Exteriores, consultadas em 5 de novembro. A tabela separa quantidades de grupos e proporção de mulheres, que não devem ser somadas. Não identificamos a aluna quilombola porque as fontes não informaram seu nome.

Fontes