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Diversificar reduz risco, mas não elimina perdas; investir exige prazo

Diversificar reduz o risco de uma empresa, mas não protege de crises gerais; reserva e prazo vêm antes de qualquer aplicação.

Dois operadores de costas, sentados diante de um painel vermelho com cotações de ações na Bolsa de Valores de São Paulo
Operadores diante do painel de cotações da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em foto de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Flickr / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Entre 1926 e 2016, cerca de 4% das ações negociadas nos Estados Unidos explicaram todo o ganho do mercado acima dos juros de títulos do Tesouro. A conclusão é do professor Hendrik Bessembinder, da Arizona State University (ASU), em estudo de 2018 no Journal of Financial Economics.

Com a Bolsa e o dólar em forte movimento após a eleição, muita gente pensa no próprio dinheiro. Este texto explica risco, diversificação e prazo, sem indicar produtos.

Uma empresa só pode ser uma aposta

Concentrar o dinheiro em uma empresa depende de ela dar certo. Problemas de gestão, de dívida ou do setor podem derrubar o preço com força. A B3 chama isso de risco específico, que atinge uma empresa ou um setor.

Uma carteira com muitas empresas reduz esse efeito. Segundo a B3, “uma carteira bem diversificada elimina os efeitos dos riscos específicos, deixando apenas o risco sistêmico”. A tabela mostra o peso de poucas empresas no resultado do mercado americano.

Poucas empresas concentram o ganho do mercado americano Valores acumulados de 1926 a 2016; ações e empresas dos Estados Unidos

Medida Valor
Ações negociadas no período cerca de 26 mil
Empresas que explicam o ganho acima dos juros de títulos do Tesouro 1.092 (4,3%)
Empresas que concentram mais da metade dos US$ 35 trilhões 90

Fonte: Bessembinder (2018), conforme resumo da W. P. Carey School of Business, da ASU. Elaboração: redação.

Diversificar tem limite

Diversificar reduz o peso de uma empresa ruim, mas não protege do mercado inteiro. A B3 descreve o risco sistêmico assim: “quando fatos afetam todos os ativos no mesmo sentido, seja positivo ou negativo”. Em uma crise geral, ações, fundos e outros ativos podem cair juntos.

Ter dez ações brasileiras, portanto, não protege de uma queda geral do mercado do país. Investir no exterior troca parte desse risco por outros, como o câmbio. A B3 cita o câmbio entre os riscos de mercado, ao lado dos juros.

Diversificar não garante lucro. Ativos podem perder valor, e um pânico pode se aprofundar.

O que diz a B3: “a diversificação não é capaz de eliminar todo o risco de um investimento”, diz o Bora Investir, o portal educativo da B3, em texto publicado em 1º de outubro de 2024.

Custos, imposto e reserva vêm antes

Custos e impostos também pesam no resultado. Fundos cobram taxas, como a de administração, que reduzem o ganho de quem aplica. A CVM oferece a ferramenta Consulta a Fundos, no Portal do Investidor.

Na renda fixa, o imposto de renda cai com o prazo. A B3 publica esta tabela, marcada como “em 2025”: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 720 dias. O imposto incide só sobre o ganho, não sobre o valor aplicado.

Antes de investir, vem a reserva de emergência. A B3 a define como dinheiro guardado para despesas fixas em imprevistos, como a perda do emprego. O ideal é cobrir de 6 a 12 meses de custos fixos, construída “aos poucos, com calma e cautela”.

Segundo a pesquisa Anbima/Datafolha, 31% dos brasileiros disseram não ter nenhuma reserva financeira ao fim de 2025. A pesquisa ouviu 5.832 pessoas, com 16 anos ou mais.

Apostar não é investir

Uma aposta depende só do resultado de um evento. Um investimento compra parte de uma empresa ou um título de dívida, que pode render ou perder valor.

Nas bets, a empresa fica com parte do que é apostado. O Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) estimou perdas líquidas das famílias em R$ 62,5 bilhões, em boletim divulgado em 6 de agosto de 2026. O cálculo usa estatísticas de pagamentos do Banco Central.

A reportagem diz que o valor é de 2025, mas a média mensal citada cobre outubro de 2024 a março de 2026. Outra medida vem da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda: receita bruta de R$ 37 bilhões das empresas autorizadas em 2025. As duas medidas usam métodos diferentes e não devem ser somadas.

Prazo longo também não é garantia. Ele dá tempo para uma queda ser absorvida, se o ativo se recuperar. Não há promessa de que isso aconteça.

O que isso significa

O dado mais forte é a concentração: poucas empresas explicam a riqueza do mercado, e o estudo não mostra como identificá-las antes. Diversificação, reserva e prazo reduzem o efeito de um erro. Não o eliminam.

Em crises gerais, o risco sistêmico pode atingir muitos ativos ao mesmo tempo. Este texto não recomenda compras, não indica produtos e não promete retorno. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar.

Como fizemos: Usamos o resumo do estudo de Bessembinder publicado pela ASU (17/09/2018), reportagens sobre o boletim do Comsefaz (6/8/2026) e sobre a receita das bets pela SPA (22/1/2026), a pesquisa Anbima/Datafolha (divulgada em 25/4/2026, via Folhapress) e páginas da B3 e da CVM, acessadas em 26/10/2026. Não lemos o estudo completo de Bessembinder nem o boletim do Comsefaz; a estimativa de perdas é do Comsefaz e não é medida direta. A tabela de imposto de renda é da B3 e informa valores de 2025; não verificamos mudanças para 2026. Não fizemos cálculos próprios: os números vêm das fontes citadas.

Fontes