O mercado não vota: o governo reeleito deve um plano fiscal claro
Uma noite de dólar futuro não é veredito sobre o país, mas o governo reeleito deve um plano fiscal claro, sem abrir mão do social.
Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Ponto de vista: texto de opinião do Meridiano, identificado como tal. Não é reportagem.
No domingo (25), Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na madrugada desta segunda-feira (26), o real caiu cerca de 10% no mercado futuro ante o dólar, segundo o InfoMoney. Votos válidos são os votos dados aos candidatos, sem contar brancos e nulos.
Mercado futuro é onde investidores apostam no preço de um ativo para uma data posterior. Com pouca negociação, ele reage depressa a notícias. Uma reação dessas, na madrugada, não é o país votando de novo.
Quem votou em 25 de outubro escolheu um governo e um programa. Para este jornal, esse programa passa por serviços públicos fortes, salário que sustenta a família e decisões tomadas no interesse nacional. O mercado importa, e o governo precisa responder a ele. Mas não cabe tratar uma noite de cotações como sentença sobre o país.
A reação de um dia não define o rumo
Em 2022, o roteiro se repetiu. No pré-mercado de 31 de outubro, o dólar subia cerca de 1,9%, a R$ 5,38, segundo o Bloomberg Línea. No fechamento, porém, a moeda caiu 2,54%, a R$ 5,166, de acordo com a Agência Brasil e a Reuters.
O que moveu o câmbio depois foi outra coisa. Em 10 de novembro, o dólar subiu 4,14%, a R$ 5,3966. Segundo o Suno Notícias, a alta veio após Lula criticar o teto de gastos, somada a dúvidas sobre a PEC da Transição.
A lição de 2022 é simples. O câmbio se mexe com as contas do governo, não apenas com o nome do vencedor.
A pergunta fiscal é legítima
O argumento do mercado merece resposta, não desprezo. Em 5 de outubro, depois do primeiro turno, a operadora Jaqueline Neo, da be.smart, falou ao site Bora Investir, da B3. Ela disse: “Se houver credibilidade fiscal, o real pode sustentar parte dessa valorização e os juros futuros podem continuar cedendo.” Ela também afirmou que, havendo frustração, parte desse movimento pode ser devolvida.
A pergunta é séria. O arcabouço fiscal é a regra da Lei Complementar 200, de 2023. Ela limita o crescimento das despesas federais a 70% do crescimento da receita, com variação real entre 0,6% e 2,5% ao ano. O percentual cai para 50% se a meta de resultado primário, a sobra das receitas sobre as despesas sem contar os juros da dívida, não for cumprida.
A regra dá previsibilidade, e é isso que o investidor quer ver. Mas a previsibilidade não pode servir de desculpa para cortar aposentadorias, merenda escolar ou atendimento do SUS. Cumprir a meta e proteger o gasto social podem andar juntos, desde que o plano diga como.
O governo já tem números no papel. Em abril, os ministérios da Fazenda e do Planejamento propuseram uma meta de superávit primário de 0,50% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz, para 2027. Isso equivale a R$ 73,2 bilhões, segundo a Reuters.
Em 31 de agosto, o projeto de orçamento de 2027 previu um superávit “cheio” de R$ 18,6 bilhões. Com descontos previstos em lei, o resultado ajustado chega a R$ 83,4 bilhões, acima da meta, segundo a Agência Gov.
Dois números tão distantes pedem explicação. Quem investe quer saber quais descontos entram na conta, quanto valem e se são permanentes. Quem depende de benefício quer saber o que sai da conta. Até a publicação, não encontramos nota oficial do governo sobre a reação do mercado.
O que diz o Ministério da Fazenda: Em documentos oficiais, a pasta, comandada desde março por Dario Durigan, propõe meta de superávit primário de 0,50% do PIB para 2027. Com os descontos previstos em lei, o resultado ajustado do orçamento chega a R$ 83,4 bilhões. A posição consta do projeto de orçamento enviado ao Congresso em 31 de agosto de 2026.
O que isso significa
O mercado tem razão em cobrar clareza. Não tem razão em transformar uma noite de cotações em veredito sobre o país. Lula recebeu 64.256.232 votos, segundo o TSE. Um governo com esse mandato deve responder a três perguntas: como cumpre a meta de 2027, quais descontos entram na conta e quanto o gasto social fica protegido dentro da regra.
Esta é a posição deste jornal. A credibilidade fiscal se constrói com plano escrito e com programas que chegam à população. Ela não se conquista prometendo cortar o que o eleitor acabou de aprovar. A Bolsa e o câmbio ainda não abriram. A resposta mais importante, porém, depende do plano que o governo apresentar.
Como fizemos: Usamos a totalização do segundo turno pelo TSE (25/10/2026) e a cobertura ao vivo do InfoMoney, acessadas em 26/10/2026. Também consultamos a Lei Complementar 200/2023 no site do Planalto, a fala de 5/10/2026 publicada pelo Bora Investir, reportagens da Agência Brasil, da Reuters e do Suno Notícias sobre o câmbio de 2022, e documentos orçamentários divulgados pela Fazenda. O Senado citou 51,74% para Lula; usamos o percentual do TSE. Os R$ 83,4 bilhões são o resultado ajustado do projeto, não o superávit cheio. Não localizamos nota oficial do governo sobre a reação do mercado até esta publicação.
Fontes
- Eleições 2026: Lula é eleito presidente do Brasil; veja o resultado nos estados — InfoMoney
- Presidente do TSE anuncia reeleição de Lula e faz balanço do 2º turno das Eleições 2026 — Tribunal Superior Eleitoral
- Lei Complementar nº 200, de 30 de agosto de 2023 — Planalto
- Ibovespa B3 fecha acima dos 206 mil pontos; dólar cai — Bora Investir (B3) (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa futuro desaba no pré-mercado após vitória de Lula; dólar sobe — Bloomberg Línea
- Dólar fecha em queda no primeiro pregão após eleição de Lula — Economic News Brasil (com Agência Brasil e Reuters)
- Dólar dispara e fecha perto de R$ 5,40 com temor fiscal após fala de Lula — Suno Notícias
- Governo federal apresenta projeto de orçamento de 2027 com previsão de superávit primário de R$ 18,6 bilhões — Agência Gov
- Governo confirma meta de superávit fiscal de 0,50% do PIB em 2027 — IstoÉ Dinheiro (Reuters)
- Lula anuncia Dario Durigan como novo ministro da Fazenda no lugar de Haddad — BandNews FM
- Imagens de Brasília - Ministério da Fazenda, foto de Pedro França / Agência Senado — Wikimedia Commons (CC BY 2.0)



