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O mercado não vota: o governo reeleito deve um plano fiscal claro

Uma noite de dólar futuro não é veredito sobre o país, mas o governo reeleito deve um plano fiscal claro, sem abrir mão do social.

Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Fachada do prédio do Ministério da Fazenda, em Brasília, com as letras MINISTÉRIO DA FAZENDA em dourado sobre parede de azulejos brancos
Prédio do Ministério da Fazenda, no Bloco P da Esplanada dos Ministérios, em Brasília.Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Ponto de vista: texto de opinião do Meridiano, identificado como tal. Não é reportagem.

No domingo (25), Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na madrugada desta segunda-feira (26), o real caiu cerca de 10% no mercado futuro ante o dólar, segundo o InfoMoney. Votos válidos são os votos dados aos candidatos, sem contar brancos e nulos.

Mercado futuro é onde investidores apostam no preço de um ativo para uma data posterior. Com pouca negociação, ele reage depressa a notícias. Uma reação dessas, na madrugada, não é o país votando de novo.

Quem votou em 25 de outubro escolheu um governo e um programa. Para este jornal, esse programa passa por serviços públicos fortes, salário que sustenta a família e decisões tomadas no interesse nacional. O mercado importa, e o governo precisa responder a ele. Mas não cabe tratar uma noite de cotações como sentença sobre o país.

A reação de um dia não define o rumo

Em 2022, o roteiro se repetiu. No pré-mercado de 31 de outubro, o dólar subia cerca de 1,9%, a R$ 5,38, segundo o Bloomberg Línea. No fechamento, porém, a moeda caiu 2,54%, a R$ 5,166, de acordo com a Agência Brasil e a Reuters.

O que moveu o câmbio depois foi outra coisa. Em 10 de novembro, o dólar subiu 4,14%, a R$ 5,3966. Segundo o Suno Notícias, a alta veio após Lula criticar o teto de gastos, somada a dúvidas sobre a PEC da Transição.

A lição de 2022 é simples. O câmbio se mexe com as contas do governo, não apenas com o nome do vencedor.

A pergunta fiscal é legítima

O argumento do mercado merece resposta, não desprezo. Em 5 de outubro, depois do primeiro turno, a operadora Jaqueline Neo, da be.smart, falou ao site Bora Investir, da B3. Ela disse: “Se houver credibilidade fiscal, o real pode sustentar parte dessa valorização e os juros futuros podem continuar cedendo.” Ela também afirmou que, havendo frustração, parte desse movimento pode ser devolvida.

A pergunta é séria. O arcabouço fiscal é a regra da Lei Complementar 200, de 2023. Ela limita o crescimento das despesas federais a 70% do crescimento da receita, com variação real entre 0,6% e 2,5% ao ano. O percentual cai para 50% se a meta de resultado primário, a sobra das receitas sobre as despesas sem contar os juros da dívida, não for cumprida.

A regra dá previsibilidade, e é isso que o investidor quer ver. Mas a previsibilidade não pode servir de desculpa para cortar aposentadorias, merenda escolar ou atendimento do SUS. Cumprir a meta e proteger o gasto social podem andar juntos, desde que o plano diga como.

O governo já tem números no papel. Em abril, os ministérios da Fazenda e do Planejamento propuseram uma meta de superávit primário de 0,50% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz, para 2027. Isso equivale a R$ 73,2 bilhões, segundo a Reuters.

Em 31 de agosto, o projeto de orçamento de 2027 previu um superávit “cheio” de R$ 18,6 bilhões. Com descontos previstos em lei, o resultado ajustado chega a R$ 83,4 bilhões, acima da meta, segundo a Agência Gov.

Dois números tão distantes pedem explicação. Quem investe quer saber quais descontos entram na conta, quanto valem e se são permanentes. Quem depende de benefício quer saber o que sai da conta. Até a publicação, não encontramos nota oficial do governo sobre a reação do mercado.

O que diz o Ministério da Fazenda: Em documentos oficiais, a pasta, comandada desde março por Dario Durigan, propõe meta de superávit primário de 0,50% do PIB para 2027. Com os descontos previstos em lei, o resultado ajustado do orçamento chega a R$ 83,4 bilhões. A posição consta do projeto de orçamento enviado ao Congresso em 31 de agosto de 2026.

O que isso significa

O mercado tem razão em cobrar clareza. Não tem razão em transformar uma noite de cotações em veredito sobre o país. Lula recebeu 64.256.232 votos, segundo o TSE. Um governo com esse mandato deve responder a três perguntas: como cumpre a meta de 2027, quais descontos entram na conta e quanto o gasto social fica protegido dentro da regra.

Esta é a posição deste jornal. A credibilidade fiscal se constrói com plano escrito e com programas que chegam à população. Ela não se conquista prometendo cortar o que o eleitor acabou de aprovar. A Bolsa e o câmbio ainda não abriram. A resposta mais importante, porém, depende do plano que o governo apresentar.

Como fizemos: Usamos a totalização do segundo turno pelo TSE (25/10/2026) e a cobertura ao vivo do InfoMoney, acessadas em 26/10/2026. Também consultamos a Lei Complementar 200/2023 no site do Planalto, a fala de 5/10/2026 publicada pelo Bora Investir, reportagens da Agência Brasil, da Reuters e do Suno Notícias sobre o câmbio de 2022, e documentos orçamentários divulgados pela Fazenda. O Senado citou 51,74% para Lula; usamos o percentual do TSE. Os R$ 83,4 bilhões são o resultado ajustado do projeto, não o superávit cheio. Não localizamos nota oficial do governo sobre a reação do mercado até esta publicação.

Fontes