Investir no país não é apostar contra ele
Com 5,7 milhões de CPFs na renda variável e 6% das pessoas físicas inadimplentes, a educação financeira protege a poupança nos dias de pânico.
Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Em junho de 2026, cerca de 5,7 milhões de CPFs tinham investimentos em renda variável, como ações e fundos. O dado é da B3, a bolsa de valores brasileira, em comunicado de 17 de setembro. A base passou de 5,5 milhões em dezembro de 2025 para 5,7 milhões no segundo trimestre.
Investir no país não é apostar contra ele. Quem guarda dinheiro para o futuro empresta à economia nacional, seja a empresas, seja ao Tesouro. Mas essa ideia só vale quando o poupador entende o que compra e está protegido na hora da venda.
O que a conta mostra
Os números precisam de contexto. O Brasil tinha 213,4 milhões de habitantes em 1º de julho de 2025, segundo o IBGE. No Tesouro Direto, programa do Tesouro Nacional para comprar títulos da dívida pública, havia 3.808.491 investidores ativos em julho de 2026. Ativo, nesse caso, significa com dinheiro aplicado.
Pela nossa conta, os 5,7 milhões de CPFs da B3 equivalem a cerca de 2,7% da população. Os investidores ativos do Tesouro Direto equivalem a cerca de 1,8%. A população inclui crianças, então a parcela de adultos é maior, mas o total segue pequeno.
No outro lado da conta está o endividamento. Em julho, as dívidas das famílias equivaliam a 49,9% da renda acumulada em 12 meses, e 28,7% da renda estava comprometida com pagamentos, segundo o Banco Central (BC). Em agosto, a inadimplência das pessoas físicas, ou seja, o atraso no pagamento de contas e empréstimos, chegou a 6%. Em 12 meses, subiu 1,1 ponto percentual.
As apostas também drenam renda. O Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), estimou perdas líquidas das famílias de R$ 62,5 bilhões com bets em 2025. É uma estimativa estatística, feita com dados de pagamentos do BC, e o próprio estudo não afirma relação de causa e efeito. A Medida Provisória 1.394/2026, publicada em 25 de setembro, proíbe a oferta e a publicidade de apostas de quota fixa. Ela precisa ser aprovada pelo Congresso para virar lei definitiva.
O que diz a CVM: o Portal do Investidor, mantido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), reúne orientações para investir, cuidados antes de aplicar e o programa Educação Financeira nas Escolas, segundo o próprio site. Este texto é opinião e não foi submetido à CVM.
Quem perde mais num dia de pânico
O argumento contrário tem força. Pequenos poupadores têm menos reserva para absorver perdas. Eles também são os mais expostos à venda de produto inadequado ao seu perfil. Por isso, o Estado não deve empurrar ninguém para o risco.
Concordamos com a premissa, mas a conclusão está nas regras. A Resolução CVM 30, de 2021, obriga intermediários a verificar se cada produto combina com o perfil do cliente, o chamado suitability. Um estudo da própria CVM, de janeiro de 2025, considerou a norma eficaz, mas abaixo do seu potencial.
O mesmo estudo registrou percepção negativa dos investidores sobre a utilidade desse processo quando feito pelos intermediários. Segundo o estudo, 65% dos entrevistados disseram considerar o suitability raramente ou nunca ao decidir. Isso é problema de fiscalização, não motivo para afastar a poupança popular do mercado.
O risco também precisa ser dito com clareza. Títulos do Tesouro Direto oscilam de preço no dia a dia. Quem vende antes do vencimento pode ter prejuízo, mas quem leva o título até o fim recebe a taxa combinada, segundo uma coluna do Bora Investir, portal da B3. Ações e fundos não têm taxa combinada, e nenhum retorno é garantido.
Ninguém sabe onde está o fundo de uma queda. Pânicos podem aprofundar perdas, e ninguém consegue anunciar com antecedência o dia em que o mercado para de cair. Justamente por isso, a informação pública pesa mais nesses dias.
A CVM mantém o Portal do Investidor, com guias para investir e um aplicativo contra golpes. A B3 Educação oferece cursos online e simuladores. Esses materiais precisam chegar à escola e ao trabalhador, e não só a quem já investe.
Esta coluna não é recomendação de compra. Ativos podem perder valor, e uma queda pode se aprofundar. A defesa da poupança popular passa por regra clara, fiscalização e educação. Um país que quer crescer com o dinheiro do próprio trabalhador precisa ensinar, desde cedo, o que é risco.
Como fizemos: Usamos dados da B3 (2º trimestre de 2026, divulgados em 17/09/2026), do Tesouro Nacional via Poder360 (balanço de julho de 2026), do Banco Central (agosto de 2026, divulgados em 29/09/2026), do Comsefaz (boletim de 2026) e do IBGE (população em 1º de julho de 2025), acessados em 26/10/2026. As proporções são nosso cálculo: dividimos cada número de investidores pela população total, sem separar adultos. As perdas com bets são estimativa do Comsefaz e não medem causa.
Fontes
- ETFs ganham 223 mil investidores em um ano e chegam a 862 mil CPFs na B3 — B3 (acesso em 26/10/2026)
- Tesouro Direto chega a R$ 272,3 bi em estoque em julho — Poder360 (acesso em 26/10/2026)
- População do Brasil chega a 213,4 milhões, aponta IBGE — SBT News (acesso em 26/10/2026)
- Juros para famílias sobem em agosto e inadimplência chega a 6% — Mercado&Consumo (acesso em 26/10/2026)
- Inadimplência das famílias atinge recorde em agosto — SBT News (acesso em 26/10/2026)
- Famílias perderam R$ 62,5 bilhões com bets em 2025 — BP Money (acesso em 26/10/2026)
- MP que proíbe bets pode perder validade em março de 2027 — Correio da Manhã (acesso em 26/10/2026)
- Entenda os riscos do Tesouro Direto — Bora Investir (B3) (acesso em 26/10/2026)
- Estudo sobre eficácia da CVM 30, de suitability, aponta melhorias para a norma — Capital Aberto (acesso em 26/10/2026)
- Portal do Investidor — CVM (acesso em 26/10/2026)
- Educação Financeira — B3 (acesso em 26/10/2026)


