Opinião: pacto fiscal do pós-eleição deve proteger serviços públicos
A cobrança por equilíbrio nas contas é legítima, mas o quarto mandato precisa distinguir desperdício de investimento em saúde, educação e renda.
Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, disse nesta terça-feira (27) que Lula precisará manter o equilíbrio fiscal e escolher uma equipe econômica capaz de articular o quarto mandato. A cobrança é legítima. O erro seria tratá-la como licença para cortar o que sustenta a vida comum.
O país precisa de contas públicas confiáveis. Também precisa de posto de saúde funcionando, escola aberta, aposentadoria paga e investimento em infraestrutura. Essas tarefas não competem entre si por natureza. Elas competem quando o debate fiscal reduz o Estado a uma planilha de curto prazo.
Equilíbrio não é sinônimo de corte cego
Kassab alertou para um Congresso mais crítico e para a cobrança por promessas de campanha. O economista Cláudio Ferraz afirmou que dívida crescente e resultados primários negativos são desafios dos próximos anos. São sinais que o governo deve enfrentar com transparência.
Mas a resposta não pode ser um “tesouraço” indistinto. Cortar fraude, subsídio mal desenhado e privilégio é diferente de reduzir equipe de saúde da família ou investimento em saneamento. A primeira medida melhora a conta. A segunda piora o serviço e empurra a despesa para depois.
A reforma tributária ajuda a organizar a arrecadação, mas também expõe a disputa por recursos. O Senado discute uma alíquota da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) que preserve a receita dos tributos substituídos. O próprio debate mostra que a neutralidade não acontece sozinha: exceções aumentam a alíquota necessária.
O próximo governo precisa apresentar uma conta completa. Quanto custa manter o SUS? Quanto custa ampliar creches? Quanto se perde quando a prevenção falha? Sem essas respostas, o fiscalismo transforma gasto social em número abstrato e esconde o custo humano da omissão.
O Congresso deve negociar prioridades públicas
Kassab disse que o PSD apoiará propostas positivas sem alinhamento automático ao Planalto. Essa independência é saudável. O Congresso deve fiscalizar e votar com autonomia. A autonomia não pode significar controlar emendas sem transparência ou impor cortes que desorganizem políticas nacionais.
A reportagem da CNN Brasil registra que parlamentares disputam influência sobre cerca de R$ 60 bilhões em emendas. O dado torna a negociação mais concreta. Cada real precisa ter destino, indicador e prestação de contas. O debate não pode ficar restrito a quem libera o dinheiro.
O pacto fiscal que o Brasil precisa é simples de enunciar, embora difícil de executar: receita suficiente, dívida controlada e serviços protegidos. Ele exige rever renúncias, cobrar grandes devedores e avaliar programas. Também exige aceitar que investimento público pode reduzir custos futuros e criar capacidade produtiva.
Uma política de austeridade que desmonta a escola pública não é prudência. É transferência de risco para famílias que já pagam com tempo, transporte e cuidado. O mesmo vale para a saúde. Quando o posto fecha, o atendimento reaparece mais caro no hospital.
O que diz Kassab: O presidente do PSD afirmou que Lula deve manter o equilíbrio fiscal e formar uma equipe econômica alinhada. Também disse que o partido ajudará o governo em propostas positivas, mantendo independência para fiscalizar.
A esquerda pode defender responsabilidade fiscal sem aceitar a falsa escolha entre números e direitos. A responsabilidade está em financiar o que funciona, corrigir o que falha e publicar resultados. O mercado pode reagir a uma planilha. O cidadão vive a consequência de uma fila.
O quarto mandato começa com uma oportunidade democrática: transformar a disputa eleitoral em programa de governo verificável. O pacto fiscal deve ser debatido no Congresso, com dados abertos e participação social. Se a conta fechar protegendo a vida, o equilíbrio terá sentido nacional.
Como fizemos: A parte factual usa a reportagem da CNN Brasil de 27/10/2026 e a matéria do Senado sobre a CBS publicada em 26/10/2026. As propostas de proteger serviços, revisar renúncias e ampliar transparência são argumentos de opinião, não declarações atribuídas às fontes.



