Texto assinadoPonto de vista

Opinião: a fuga de Flávio exige instituições à altura do Brasil

A saída do país e a carta com apoio estrangeiro não são folclore político; cabe ao Estado investigar com firmeza e devido processo.

Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Donald Trump, Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo reunidos no Salão Oval
Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca, em maio de 2026, cinco meses antes da viagem do senador aos EUA.Foto: Autor não identificado / Casa Branca / Wikimedia Commons (domínio público)

Flávio Bolsonaro deixou o Brasil depois de receber ordem judicial para entregar seus passaportes. Nesta quarta-feira (28), divulgou carta em que agradeceu aos presidentes Donald Trump e Javier Milei pelo apoio à saída. Também repetiu, sem apresentar provas, a acusação de fraude na eleição que perdeu.

O Meridiano considera o episódio um teste para a soberania brasileira. Um senador investigado tem direito à defesa e à presunção de inocência. Não tem, porém, um passe especial para descumprir decisões nem para transferir a disputa política nacional a governos estrangeiros.

Os fatos conhecidos não dependem da narrativa do senador Situação documentada até a tarde de 28 de outubro de 2026

Questão O que está confirmado
Ordem judicial Alexandre de Moraes proibiu a saída e determinou a entrega dos passaportes
Rota Flávio e a família passaram por Argentina e Equador antes de chegar a Miami
Controle migratório PF não encontrou registro em postos brasileiros
Investigações Senador é investigado; não há condenação nesses inquéritos
Resultado eleitoral TSE apurou a vitória de Lula, e o PL reconheceu o resultado

Fonte: Polícia Federal e Agência Brasil.

Soberania não é palavra de ordem

A carta de Flávio inicialmente o chamava de “verdadeiro presidente eleito do país”. O termo foi trocado por “líder do Brasil” cerca de meia hora depois. A correção do título não resolveu o problema central: a alegação de fraude continuou sem provas.

O eleitor pode contestar uma eleição pelos meios legais. Pode reunir documentos, apresentar ações e recorrer à Justiça Eleitoral. O que não pode é transformar a derrota em certificado de fraude porque o resultado lhe desagrada.

O próprio PL reconheceu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concluiu a apuração. A diferença foi superior a 4,4 milhões de votos. Os 34.393 votos registrados durante a prorrogação não explicam essa margem.

O agradecimento a Trump e Milei torna o caso ainda mais grave no plano político. Relações internacionais são legítimas. Apoio de governos estrangeiros para contornar uma ordem judicial brasileira exige investigação sobre participantes, recursos e finalidades.

Soberania significa que as decisões do país são tomadas por suas instituições. Não é conceder ao presidente de outra nação o poder de definir quem deve cumprir a lei brasileira. Essa defesa vale para qualquer governante e para qualquer campo político.

Firmeza não dispensa devido processo

A resposta necessária não é uma caçada pública. É o funcionamento rigoroso da Polícia Federal (PF), do Ministério Público e do Judiciário. A PF já apura as circunstâncias da viagem e a ausência de registros migratórios no Brasil.

Também é importante preservar a precisão jurídica. A própria PF esclareceu que restrições a documentos de viagem não caracterizam, sozinhas, a condição de foragido. Tampouco autorizam isoladamente prisão ou vigilância permanente.

Esse cuidado não é fraqueza. É o que distingue um Estado democrático da perseguição que Flávio alega sofrer. As provas devem orientar cada nova medida. Eventuais responsabilizações precisam respeitar contraditório e devido processo legal.

A opinião pública deve cobrar transparência sem transformar versões em vereditos. O lugar das acusações é o processo formal, com acesso à defesa e revisão judicial. Esse caminho protege tanto a ordem pública quanto os direitos individuais.

A oposição brasileira também precisa escolher. Há espaço legítimo para discordar de Lula e fiscalizar o governo. Não há como fortalecer essa oposição sob a promessa de liderá-la do exterior enquanto se nega o resultado das urnas.

O que diz Flávio Bolsonaro: Na carta divulgada nesta quarta, o senador afirmou que liderará a oposição dos Estados Unidos. Disse que assumirá riscos que outros parlamentares não poderiam correr e repetiu acusações de fraude, sem apresentar provas no documento.

O Brasil deve responder com instituições fortes, não com improviso. Isso exige apurar a rota, identificar eventuais facilitadores e esclarecer o papel dos apoios estrangeiros. Exige ainda rejeitar a falsa ideia de que patriotismo consiste em pedir tutela política a outro país.

Como fizemos: Esta análise de opinião usa a decisão judicial, a cronologia da viagem e as declarações públicas reproduzidas pela Agência Brasil. A tabela separa fatos documentados de acusações ainda em investigação. A posição editorial defende soberania e devido processo, sem antecipar o resultado dos inquéritos.

Fontes