Opinião: a fuga de Flávio exige instituições à altura do Brasil
A saída do país e a carta com apoio estrangeiro não são folclore político; cabe ao Estado investigar com firmeza e devido processo.
Ponto de vista. A posição exposta neste texto é de quem assina e não representa necessariamente a linha editorial do Meridiano.

Flávio Bolsonaro deixou o Brasil depois de receber ordem judicial para entregar seus passaportes. Nesta quarta-feira (28), divulgou carta em que agradeceu aos presidentes Donald Trump e Javier Milei pelo apoio à saída. Também repetiu, sem apresentar provas, a acusação de fraude na eleição que perdeu.
O Meridiano considera o episódio um teste para a soberania brasileira. Um senador investigado tem direito à defesa e à presunção de inocência. Não tem, porém, um passe especial para descumprir decisões nem para transferir a disputa política nacional a governos estrangeiros.
Os fatos conhecidos não dependem da narrativa do senador Situação documentada até a tarde de 28 de outubro de 2026
| Questão | O que está confirmado |
|---|---|
| Ordem judicial | Alexandre de Moraes proibiu a saída e determinou a entrega dos passaportes |
| Rota | Flávio e a família passaram por Argentina e Equador antes de chegar a Miami |
| Controle migratório | PF não encontrou registro em postos brasileiros |
| Investigações | Senador é investigado; não há condenação nesses inquéritos |
| Resultado eleitoral | TSE apurou a vitória de Lula, e o PL reconheceu o resultado |
Fonte: Polícia Federal e Agência Brasil.
Soberania não é palavra de ordem
A carta de Flávio inicialmente o chamava de “verdadeiro presidente eleito do país”. O termo foi trocado por “líder do Brasil” cerca de meia hora depois. A correção do título não resolveu o problema central: a alegação de fraude continuou sem provas.
O eleitor pode contestar uma eleição pelos meios legais. Pode reunir documentos, apresentar ações e recorrer à Justiça Eleitoral. O que não pode é transformar a derrota em certificado de fraude porque o resultado lhe desagrada.
O próprio PL reconheceu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concluiu a apuração. A diferença foi superior a 4,4 milhões de votos. Os 34.393 votos registrados durante a prorrogação não explicam essa margem.
O agradecimento a Trump e Milei torna o caso ainda mais grave no plano político. Relações internacionais são legítimas. Apoio de governos estrangeiros para contornar uma ordem judicial brasileira exige investigação sobre participantes, recursos e finalidades.
Soberania significa que as decisões do país são tomadas por suas instituições. Não é conceder ao presidente de outra nação o poder de definir quem deve cumprir a lei brasileira. Essa defesa vale para qualquer governante e para qualquer campo político.
Firmeza não dispensa devido processo
A resposta necessária não é uma caçada pública. É o funcionamento rigoroso da Polícia Federal (PF), do Ministério Público e do Judiciário. A PF já apura as circunstâncias da viagem e a ausência de registros migratórios no Brasil.
Também é importante preservar a precisão jurídica. A própria PF esclareceu que restrições a documentos de viagem não caracterizam, sozinhas, a condição de foragido. Tampouco autorizam isoladamente prisão ou vigilância permanente.
Esse cuidado não é fraqueza. É o que distingue um Estado democrático da perseguição que Flávio alega sofrer. As provas devem orientar cada nova medida. Eventuais responsabilizações precisam respeitar contraditório e devido processo legal.
A opinião pública deve cobrar transparência sem transformar versões em vereditos. O lugar das acusações é o processo formal, com acesso à defesa e revisão judicial. Esse caminho protege tanto a ordem pública quanto os direitos individuais.
A oposição brasileira também precisa escolher. Há espaço legítimo para discordar de Lula e fiscalizar o governo. Não há como fortalecer essa oposição sob a promessa de liderá-la do exterior enquanto se nega o resultado das urnas.
O que diz Flávio Bolsonaro: Na carta divulgada nesta quarta, o senador afirmou que liderará a oposição dos Estados Unidos. Disse que assumirá riscos que outros parlamentares não poderiam correr e repetiu acusações de fraude, sem apresentar provas no documento.
O Brasil deve responder com instituições fortes, não com improviso. Isso exige apurar a rota, identificar eventuais facilitadores e esclarecer o papel dos apoios estrangeiros. Exige ainda rejeitar a falsa ideia de que patriotismo consiste em pedir tutela política a outro país.
Como fizemos: Esta análise de opinião usa a decisão judicial, a cronologia da viagem e as declarações públicas reproduzidas pela Agência Brasil. A tabela separa fatos documentados de acusações ainda em investigação. A posição editorial defende soberania e devido processo, sem antecipar o resultado dos inquéritos.
Fontes
- PF investiga circunstâncias da fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil — Agência Brasil
- Aeronave com Flávio Bolsonaro e família pousa nos Estados Unidos — Agência Brasil
- Em carta, Flávio agradece Milei e Trump por apoio para fugir do Brasil — Agência Brasil
- Donald Trump, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Paulo Figueiredo — Wikimedia Commons



